segunda-feira, 9 de maio de 2016

Se me seguirem em um domingo à noite, daqueles cheios de clichês
Capaz de eu virar e gritar agoniado que aqui não tem nada que preste
Não tem uma música, uma foto que acompanhe a lembrança persistente no lugar do sono

Aqui tem só vontade

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Tudo o quanto me foi dito, e o mais
Eu guardo para quando não houver mais nada.
Eu sou de 85 e me perco no tempo;
Só lembro do cheiro.

Aquela vida projetada atrás
Perdeu-se na ressaca de domingo mal curada.
Eu digo que não grito, mas eu sei quando tremo;
É que o nada me põe medo.

Pudera eu trocar de cartas
(talvez de brincadeira);
Quem dera eu me livrasse do carma.

Só basta um dia e já o leite coalha
(por mais que eu não queira);
É só uma curva e já o fim da estrada.

Janeiro 16, 2013


Sempre me lembro de quando brincávamos na praia. O vento fresco de janeiro fazia de qualquer noite, inda cedo, uma madrugada. Eu, besta que era, corria do seu abraço, mas ele chegava de todo jeito, porque mais certo que o vento fresco naqueles janeiros era o seu abraço. Nem me lembro do que falávamos; lembro que a vida era boa e os sonhos eram muitos. Ali mesmo naquela praia vi você chorar, chorar de rir, chorar de choro e chorar pela bebida, que um dia lhe pegou despreparada e me arrumou uma cena que até hoje me faz rir. Sempre ri de você chorando.

Nunca mais voltei para ali à noite. Os janeiros já não são mais os mesmos e tenho para mim que a água do mar não fica mais quentinha como ficava antes. Também já não sei se consigo caminhar por aquela areia; acho que só de ver aquele trapiche pode ser que quem chore seja eu e, quando isso acontecer, você não vai estar lá para rir de mim.

Março 14, 2012


Lembrar não deixa de ser um esforçar.

Tinha ainda tanto tempo quando aconteceu. Do jeito que se mexia, o jeito que olhava, era tudo um vislumbro ansiado, inquieto, cheio de viço.

essa pressa toda é pra quê?
- Ué, e que vida que espera por alguma coisa?

Deixou por lá uma vontade de voltar...
hoje, coitado, sofre por não ter para onde ir.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Tonha, cadê o café que você ficou de trazer faz três horas e até agora nada?
Não vê que o mundo não espera, Tonha?
É tanta coisa pra arrumar, tanto rumo pra aprumar, tanto problema pra resolver!

Veja, a menina de Dona Eleide caiu de cama com a testa queimando. 
Inda ontem encontrei o síndico no elevador e ele jurou que a culpa é desse tempo seco.
Ele ainda não percebeu, o coitado.

Você lembra que a gente tinha ficado de sair pra comprar as coisas que estão faltando?
Já já essa menina piora e vão dizer que na verdade a culpa é sua, Tonha, você sabe disso.

Eu digo que você não faz por mal, que é muita coisa errada que se encontra nessa vida, que é quase tudo errado, na verdade. 
Mas você acha que alguém lá quer saber disso? O povo quer é solução.


Uma hora dessas não vai dar mais pra esconder. Vão acabar descobrindo tudo, Tonha, e ai de quem estiver por perto quando isso acontecer. 


Eu quero estar longe, porque não gosto de confusão. 


Por mim, eu me ia já agora. Mas como que se faz isso, se tem três horas que espero e nada desse café ficar pronto?

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mais uma pausa e pôs fora o cigarro ainda pela metade. Fazia isso em duas situações: quando tomado da euforia ansiosa que precedia grandes decisões, ou quando a fumaça simplesmente não lhe caía bem (corroía-lhe então a espera do assalto certeiro da melancolia obstinada que às vezes demora pra pegar. Nem uma nem outra, como se vê). 

Levantou-se da cadeira a contragosto para ajustar o ventilador, não sem notar a pequena poça de suor que principiava a acumular na napa branca do encosto. Em seu curto caminho, parou em frente ao espelho detrás da porta que se insinuava todo reflexivo e, tomando a mesinha do telefone como apoio - porque era de fato insuportável até para si próprio -, atinou de se fitar um tanto, primeiro nos cabelos inevitavelmente desgrenhados, depois no rosto cansado que se consumia cotidiana, rotineira, supérflua, morosa, sucessiva, inexorável, incansável, resignada. 

Não digo que chegou a suspirar; não convinha.

Resolveu que era hora de ver o mundo, antes que escurecesse e esperar pelo novo clarear fosse a única saída possível. Foi à rua do jeito mesmo que estava. 

Ainda na portaria, pensou em ligar ou em mandar mensagem para alguém, mas desistiu por não encontrar ninguém adequado ao parágrafo seguinte. Falou um boa tarde visivelmente inapropriado ao porteiro e...

... encontrou a calçada, a avenida, o ônibus e os outros cotidiana e rotineiramente iguais. Arriscou uma volta no quarteirão, cogitou um atropelamento, um desafogo, um encontro súbito, um reencontro ansiado, uma discussão transformadora. Conformou-se. 

Era decididamente um homem sem final.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Terça-feira, Maio 19, 2009

Escorro cada vez mais por entre os meus próprios dedos.
Antes, eu julgava inocentemente que o escrever-me prenderia em mim o que eu mesmo não faço por não ter coragem ou viço para tanto.

Hoje eu desespero.
Não tenho sequer uma caneta, um pedaço de papel, qualquer nesga de suporte que oriente o que já é insustentável;
cansei de procurar nos quartos, nas casas em que estive, nos livros que eu li quando ainda não imaginava que não me teria mais por mim.
Os outros, esses já não mais encaro -
Tenho medo só de conceber que alguém saiba o que não tenho a menor vontade de admitir.

De tudo em pouco que me sobra, sorvo somente à mostra;
Guardo todo o resto para o depois do fim.

Terça-feira, Maio 19, 2009

Estou migrando aos poucos para o blogspot. Abandonarei a blogger.com.br, que parou no tempo e nem uma ferramenta de exportação me oferece.

O endereço será o http://georgelucena.blogspot.com/

Começa aqui o fim deste que me acompanhou por 06 anos.

Quinta-feira, Janeiro 15, 2009

Faz do acordar a resistência diária não contra o que não quer ser, mas contra as próprias constatações de que já está sendo. Daí que se nega a dormir. Evita em cada música, em cada cigarro, em cada programa enfadonho da televisão obstinada a inevitável rendição à incapacidade de mudar.
Quando lhe perguntam o que é, responde, ridiculamente, o que será.
A insônia não é dos que naturalmente sofrem, mas dos que escolhem sofrer por não deixar de se entregar.
Um dia, quem sabe, deixará de querer ser.

Sexta-feira, Outubro 10, 2008

Era só gritarem o almoço que eles apareciam saracoteando cozinha adentro. Vinham da terra onde quer que a encontrassem, na rua, no quintal, no jardim já destruído pelo chafurdo cotidiano das manhãs de janeiro. Chegavam sonsos aqueles olhinhos, trazendo consigo a beleza que não admite reprimendas e que tudo se permite.

Tanta meninice me emocionava. Na verdade, nunca fui tão bobo em minha vida, ora invocado pelo abraço que a danada rejeitava só para me passar raiva, ora encantado pela bagunça que aqueles olhos, nuinhos, faziam no peito da gente.

Um dia parece que saíram para um passeio à tarde que demorou a mais porque o dia inventou de escurecer mais cedo.

Quando janeiro acabou, eles já não eram mais meus.

Até hoje os espero, remordido. Embriagado com a saudade e com a lembrança do tempo bom, nem percebi quando aqueles olhos manhosos levaram a minha menina buliçosa que nunca mais voltou.

Sexta-feira, Outubro 03, 2008

Inda ontem eu chorei, lembra?
Rabiscava em linhas tenras o amor que iria vir.

Ali, eu cismava de tão sentir o que então era encanto,
E rezava, que é para tudo durar só mais um pouco.

Hoje eu choro a saudade perdida.

Perdida das horas de conversa escondida embaixo do lençol para o sono não ver,
Perdida do mundo que você me soletrou pacientemente para eu não esquecer,
Perdida do menino que cresceu e por achar que não cabia mais em si, também se perdeu.

Fui só eu que escolhi.
Haverá como se tentar de novo?
Temos tanto por fazer, a casa para arrumar, a pia para consertar, tanto corpo para ceder.

Inda ontem eu sonhava, disso eu lembro.
E do mais? Será que já esqueci?

Sábado, Abril 19, 2008

A vida vai voltar a ser o que era. Eu me esforço para acreditar nisso, nesse pensamento que, de futuro, transformou-se na minha única esperança de felicidade.

Só quero a mim de volta. Quero voltar ao tempo em que sonhar com o passado não me emocionava, de imerso que estava em descobrir, ou em me enganar, que ainda havia tanto pela frente. Quero de volta as minhas crenças, as minhas ilusões, a minha sensibilidade lúdica que se esvaiu tão rapidamente, sem permitir que eu, ao menos, contemplasse o mar com olhos despreocupados pela última vez.

(...)

Hoje a tarde foi um pouco mais longa. Tive certeza, em vários momentos, que não agüentaria tanta espera. Foi a primeira vez em que pensei em desistir.

Sexta-feira, Novembro 30, 2007

Deixo para trás a última saudade não sentida. Todas as outras levo comigo.

Trago o peso da culpa e das coisas que carregam os carregados à morte. Sofro com a lágrima que vai derramar quando eu sumir com o meu rosto, e me arrependo por estorvar a última noite que poderia ter comigo e não terá.

(ao menos vou certo de que nunca me esquecerei no frio que o tanto sempre me causou)

De lá remeterei as minhas lembranças, que andam partindo a uma velocidade que não consigo mais acompanhar. Mandaria despachar até a goiabeira, se ela não tivesse caído junto com todo o resto quando o asfalto chegou.

Amanhã, finalmente gozarei a vida que acabou ao começar.


Sexta-feira, Julho 06, 2007

A melodia começara baixinho. Meus pés ensapatados, desacostumados ao movimento, ensaiavam um sapateio descompassado, mesmo que eu não me desse por isso.

E sem que eu me desse por isso, o som contagiava-me em seu ritmo por vezes delirante, por vezes lôbrego, mas sempre presente, como uma sinfonia que, tomada de embriaguez, estendia-se até nunca, atrapalhando a ópera apoteótica que eu, inocente, insistia em aguardar.

Na terceira ária não cantada, dancei.

A cidade, surpreendida, abriu espaço, fazendo-se de palco. Logo eu, que nunca dei ouvidos ao que se cantava por ai; eu me embalava, à espera de aplausos, dançando - finalmente - a música do mundo.


Terça-feira, Maio 08, 2007

Esta noite, quando eu já dormitava, ele me assaltou.

Chegara madrugada alta:

"Calça os teus sapatos que hoje é dia de festa!
Quero a goma mais lustrosa no cabelo e
O perfume mais doce no tecido.
Quero a pura alegria de janeiro"

Sonolento, eu chorava, surpreendido.

"Não falei que voltaria quando me tivesse por sumido?"

Entreguei-lhe tudo o que tinha,
Com exceção dos sapatos, da goma e do perfume.
A cada carta, a cada fotografia, a cada lembrança dobrada, eu lia em seus olhos o regozijo soberbo e silencioso de quem se descobria importante - dir-se-ia indispensável.

"Tenho cá comigo teus uniformes,
Tenho teus livros e teus amores.
Tenho o tempo frouxo e o brincar bobo que não marca hora pra acabar"

E eu me via mais nele que em mim,
Desesperado por não achar a alegria,
Perdida que estava no meio do mofo e da poeira que o tanto mexer nas gavetas levantou.

Partiu levando-me o muito que não deixou.
Tentei agarrar-lhe as pernas, mas se esquivara com o primeiro toque para o recreio.

Restei sem minha brisa (e sem a sesta preguiçosa), sem meus cachorros, sem minha acácia velha que descascava a cada subida...

De que adiantava tanto alvoroço?

Da festa maior eu já não mais posso participar.


Sábado, Março 24, 2007

Saibam que a ânsia que sinto ao ver os sorrisos estampados nas propagandas é a de quem espera a vida inteira pela fotografia mais bela. Sei que tudo são porta-retratos de uma existência estática, capturada por imagens instantâneas e lá aprisionada por todo o tempo que durar a tinta.

(Não sei ainda, por outro lado, a quem serve o prazer não compartilhado: a embriaguez solitária é tragédia, a punheta é doença, o cigarro é o vício e o ócio, a degeneração. Não sei a quem serve o tempo apressado, o momento engolido, o futuro empacotado em carta registrada para não se perder no caminho. Não sei, enfim, o que comprarei com o dinheiro que terei aos quarenta, mas me esforço, todo dia, para entender que nisso residirá minha felicidade)

Os velhos, por si, sorriem com as caras mais carrancudas do mundo, porque o riso há tempos perdeu-se nos primeiros quadros. Eles já perceberam para quem se vive. Eu, por mim, tento, cada vez mais, não me convencer.


Quinta-feira, Março 01, 2007

Quanto da espera é estupidez;
Quanto me embriaguei na altivez de tanto encanto,
Aguardando acalantos nunca embalados,
Tragando pinturas em quadros, desenhadas para um outro, que não eu.

Quanto da palavra foi desperdiçada;
Quanto me cativei do sorriso sonso, de tão manhoso,
Sufocando o descontentamento mudo,
Ludibriando em ilusões vermelhas, aspergidas displiscentemente, certo em mim, que não creio em Deus.

Quanto da perda foi insistência;
Quanto do desgosto foi só meu capricho,
Alteando fogueteios pálidos,
Trepidando flâmulas fendidas, esgarças: homenagem caduca a uma inquietação mais do que moça.

Ora me perco nas horas,
E quanto das horas perdi em revelar-me,
Como quem espera, mais do que só, o remorso de tanta obstinação?


Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

Bem que - sim! - podias ter falado menos,
E usado a magia pra acalmar o sereno que me faz gripar.


Hoje eu que deito pra esperar o mundo.

Hoje eu que falo tanto absurdo, pra te conquistar.


Sonho o sonho bobo com tuas mãos ao peito,

Quero o envergonhar-me, ao acordar sem jeito,

E ouvir aquela voz, quando se esgueira, dizer:

"Vem fazer meu carnaval"


Mas quanto da folia foi só desconcerto, logo cedo.


Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Aquele sim tinha nome. Nome, sobrenome e uma necessidade sufocante de fugir de casa, necessidade que crescia no tanto que uma modorra braba, daquelas de deixar o cabelo cheirando a mofo, atacava-lhe os pés.

Passava pouco das três. Augusto Mancini saíra de casa do jeito mesmo que estava, gafo e todo acabrunhado, dizendo que ia fumar cigarro, embora se tenha por certo que o que queria mesmo era auto-impingir-se um feitio noir, mesmo às três da tarde e mesmo numa cidade tão cinza e sem contraste quanto São Paulo.

Caminhara pouco, não mais do que vinte metros, quando constatou que vivenciava um daqueles momentos da vida a que se pode realmente chamar de momento. Imediatamente, Augusto tratou de tentar resgatar todas as suas reflexões pensadas ou ouvidas que, de alguma forma, versavam sobre a plasticidade da realidade, a insustentabilidade da existência e a transitoriedade do sensível.

Tentou, mas o tempo fora insuficiente, como precisamente ocorre com todo o mais.

A lotação, que passava à rua e cenariava para o seu filosofar vespertino, sumiu sem fazer qualquer alarde, do mesmo jeito que fazia quando, já cheia, mudava de rota para evitar o caos urbano das seis. A mesma coisa se deu com uma senhorinha, simpática até, que por aquelas bandas passeava (isso é tudo o que dela se soube).

Já Augusto Mancini, aquele sim tinha nome e sobrenome que não permitiriam o seu sumiço. Augusto havia caminhado não mais do que vinte metros quando a rua abriu-se à sua frente, de certa forma convidativa, insinuando que, ao fundo, havia mais segredos e mais mistérios do que o que aquela concretada toda permitia antever. Um convite para poucos.

No instante em que penetrava os intestinos da cidade barulhenta, inevitavelmente projetava a sua memória para idos tempos onde se podia, com solidez, brincar despreocupado à margem do rio, lembrança caduca já pelo rio, que dirá de suas várzeas firmes.

E depois?

Depois mais nada. Mesmo em São Paulo, o nada faz barulho de silêncio.


Quinta-feira, Janeiro 11, 2007

Certa noite, uma prostituta do Lido chora; chora de jeito que nem é tanto choro em vão: canta o pranto daquela puta que, de seu, só o choro pode ser canção.

A puta sonha; sonha de jeito que sua mão frouxa leva o cigarro ao chão: tanto do seu sonho corre alto, mas seu cigarro, queimando leso, diz-lhe que não!


Certa noite, essa prostituta do Lido, horrorizada, deu para gritar, e só gritar.


Gritava, mas era uma coisa que ninguém acodia, que ninguém se ajuntava, que ninguém virava a cara nem muito menos comentava o seu horror. Vai ver achava-se que, por esses mercados, mesmo a compaixão tem de ser cobrada.


Uma criança até brincava na praça, e o cigarro da puta, naquela noite, consumia, indolentemente, mais um trago de ilusão.