quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sábado, Dezembro 10, 2005

Tudo se movia em um tudo-tanto!, que o empurrava à imobilidade.

O ímpeto acertou-lhe as costas, uma mão engravatada que, em busca do tempo, engolia espaço.
Tropeçou em seus chinelos, caindo em meio à avenida, mais parado, mais sossegado e mais aliviado do que poderia esperar de todo aquele movimento.

O resto foram lamentos das velhas choronas da Candelária:
- se ao menos estivesse calçando sapatos!...

Sexta-feira, Outubro 21, 2005

Causos do mundo moderno

Havia, em certas bandas, um macaco bicho matreiro. Pêlo enrolado, olho baixo, de certo maconheiro, boca já aprumada prum riso frouxo.

Apois, o tal macaco dizia que não comia banana, porra é de potássio com letra de gringo! Caba de peia era aquele que preferia caju, causa que da vitamina, esse sim é fruta de brasileiro.

Terça-feira, Outubro 04, 2005

Aquieta-se a imensidão. De fora todo o resto, naquele soluço que é engasgo e que pausa, envergonhadamente, a conversa, em uma desculpa engolfada de acinte aos bons costumes; naquele tropeço bronco que faz voltar o rosto a admoestar o chão traiçoeiro; na espera ansiosa pela luz que, mais do que iluminar, confere às coisas o seu jeito de coisas; em toda essa suspensão de vitalidade, agida por algum titeriteiro em horário de lanche, aí está a imensidão mansa, calminha como uma criança sentada em um tamborete às cinco da tarde no aguardo da mãe que vai já, só acabar o café.

A vida, alheia à simples vontade, acaba, invariavelmente, porque invariáveis são as formas com que tudo se acaba, por se erigir em um balaio lotado de agruras que têm por fim o eterno sapecar em nossos rostos que o azedume do limão, aquele que se coloca em toda comida, tanto tem de ruim para a língua e para o estômago, quanto tem de mal para a pele, quando exposta ao sol. São os ditos e tantos dissabores, de bem que a mim cai melhor ter o sabor, esse sim, por dissabor, eis que certo é que mais se apanha do que se recebe beijos nesta vida.

E tão, então, que tanta atribulação um dia arpeja. Os Exus, já acostumados a agoniar o juízo dos outros, cansam do aperreio e resolvem descansar, dizem que nos tempos em que a água de coco não está lá essas coisas. E aí, é igual quando a arrebentação passa e o olho ainda salgado lacrimeja aquele mar enorme e bem horizontalzinho, quando o avião sobe e, turbulento, arruma-se acima das nuvens, como que a roçar um tapete de algodão fofo com o pé que sai aliviado de um expediente inteiro de trabalho, igual a esses e a outros enfins. Nisso tudo, percebe-se que atabalhoação era só percurso, que o azedo era tira-gosto, e que tudo quanto é, a despeito do que pretenda demonstrar, é plácido, sereno, lúcido e lúdico, como se estivesse em uma cara colônia de férias todo o marasmo do mundo.

Quarta-feira, Agosto 31, 2005

Tudo bem, posto que tímido, introspectivo e taciturno o tanto que fosse, até onde se sabia, era dado aos banhos. Foi que lá por casa a tal da assepsia estava ao mesmo nível da obrigação de se tomar sopa antes da janta, e os meninos sempre cresceram nesse regime, sem nunca reclamar por outro lar.

Pois bem que um dia ele e a mudez entraram a gritar amiúde que não dava mais, desse jeito só os bambas e a revolta é a dor que não se contém e que batuca té que explode. Saíram às ruas.
A mãe ficava de banda com essa mania mais troncha, nunca viu de bezerro dar pra gralhar de hora pra outra! Diziam que era da idade, mas, se bem se lembrava, por esses tempos ela já usava até anel...
De um jeito ou de outro, ficasse assim, faz-se o quê?, se filho é filho.

Deu nem dois anos apareceu em casa trocando as pernas. Empurrou o pai e bateu a porta, deixa dormir que só passa com o sono.
Dia seguinte a mãe se impacientou e foi chamar. Teria gritado se o cheiro não a tivesse feito vomitar, de um pronto, o menino, mais mudo do que nunca, caído ao chão, envolto em fezes.

A cena a todos desesperava, chorando sempre tão amarguradamente, sempre tão escandalosamente, tão penosamente e com tantos aimeudeus. A mãe, por dentro, por outro lado, suspirava, não por desafeição, é que sempre foi de causar-lhe espécie toda aquela história de transgressão.
E a tia, atrás, braços cruzados, professando:

- Bem dizia que estava tudo uma merda.

Quinta-feira, Agosto 18, 2005

Inocência

Levantava as calças, remexia o cabelo, moleque com o olhar que se dizia ingênuo, mas era ansioso, antes pelo sorriso, ora pela pupila que se abria em bocarra sussurrando que era eu, e eu era tudo isso, matreiro que sou. Que dó! ...quietinho. Desciam as calças, suava o cabelo, lânguido com o olhar que se dizia extasiado, mas era esperançoso, antes pelo repor, ora pelo abraço que se desfazia em cordame sufocando que somente eu, e eu merecia tudo isso, abençoado que sou. Tão só!

Quinta-feira, Abril 28, 2005

Lá não havia pombos
Puseram na cova, de uma vez,
As praças, as calças, o frio,
E uma certa esperança de melancolia,
Tudo num mesmo jazigo, esculpindo no mármore
"Assim se vai o sentimento e a vontade de se ser poeta"
Isso sem que a poesia precisasse dos pombos.

De toda forma, ao julho sempre faltou a rima
(Ou talvez a rima pareceu por se recolher, esperando pelo julho -
Em uma carta por debaixo,
No abrir desconsolado,
No acender despropositado,
No jeito frustrado, calado, diacho!: dizia um não,...)

É que se fazia quente,
Que se fazia tumultuado, curto, mesmo indecente,
Que se fazia alegre por demais.

Alcunhavam-no de lírico por cantar os sabiás,
os rouxinóis, ou outros bichos cadenciados.
Mal sabiam! ou sabiam demais e o faziam em mexerico.
A verdade é que em nada adiantava todo esse lirismo
Se por lá não houvesse pombos de que se pudesse falar.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Levantava, levantava apressado
O chão não chegou, o vôo se perdeu, o susto passou
(o braço aberto, tolo).

- Avia, limpe os olhos, o quarto e o colchão...

Trocava a camisa, vestida, suada - só o devaneio é corajoso.
Saía do tão só ao mergulhar na solidão.

Sexta-feira, Fevereiro 25, 2005

O bom-dia saía despregado da boca fechada, selada com a saliva seca acumulada no canto por 7 horas de sono barulhado pelo ronco. Tanto a saliva quanto o ronco eram dele. O pão não. O pão deveria ser acordado, vestido, descido, andado, gastado e comprado: por mais que viesse fresquinho, por mais que crocasse, o pão precisava de muito mais verbos.
A padaria ostentava-se bem ao lado do seu prédio, junto a lavanderia self-service, restaurante fast-food, farmácia delivery, lan house e banco informatizado e conectado com o mundo, um monumento do anacronismo e uma pirraça com a evolução.
É, há coisas que são como são, só porque ainda não se deram por conta de mudá-las. O hábito de comer pó de trigo fermentado é uma delas, quente, ainda mais, besuntado na gordura do leite da vaca, nada menos brasileiro do que isso. Se Jesus tivesse ficado só pelos peixes, provavelmente o café seria acompanhado só de tapiocas. Isso eu quem falo. Ele culpava os portugueses que, a despeito dos bigodes, trouxeram os fornos de mala e cuia, além da sífilis, é claro (ria-se).
De qualquer jeito, comprava pães, tal qual escovava os dentes por mais que odiasse o gosto do dentifrício. Suas primeiras visões do mundo se davam entre a portaria do prédio e lá, enquanto separava as moedas no bolso, pensando em como o Neruda poderia se encantar tanto com leche y pan. Aguardava - e isso seu íntimo querer o denunciava, tão íntimo que só se manifestava porque ainda não passou das oito e o sol não está tão forte - o momento em que entre os cinqüenta e os vinte e cinco centavos esbarraria com ela, cabelos presos em coque, óculos de armação grossa, jornal recém-comprado embaixo do braço e um cachorro atado à cintura. Preferes as baguetes? - perguntaria. E suspirando: os brioches com parmesão parecem-me apetitosos.

Sábado, Dezembro 18, 2004

O meu descanso era interrompido pelos gritos do velho. A sesta embalada pelo pé ao pé do alpendre cantigada pelos cochilos preguiçosos se perdia ao primeiro dos praguejos, como a perna folgada que se estende ao sofá e que se arruma rapidamente ao ouvir qualquer barulhinho com cheiro de repreensão.

Trabalhava às boiadadas do velho. O joelho às vezes se envergava, cantando junto com o arfado melodicamente que o resfolegar pedia fôlego, e nessas vezes o tanger se mostrava vigoroso, berrando o velho que responsabilidade é trabalhar ajoelhado se o joelho insiste em ir ao chão.

Comia ajustando-se ao compasso do velho. O pé tremia o assoalho se o relógio fora mandado para trocar a bateria, e eu tinha a certeza que se as coisas como a bateria não eram para sempre, o tempo do velho tinha algo de sempre, estivesse o sempre na constância ou na inexorabilidade. A madeira e a engrenagem ainda permitiam o sentar-se, mas à cabeceira estava o velho a lembrar que não abusasse, sem sobremesas ou repetições, o que arrematava, sabiamente, rouquidava, a glutonaria e o perdularismo.

Estava com o velho também ao caminhar, no reparo artificial aos passos que haviam de se mostrar graves e à postura que necessitava de consertos; ao cavaquear, na negação do fito dos olhos que me fazia de entregue, um promíscuo para o velho, ou que me fazia de curioso, um indecente; ao rir, um espalhafatão; ao brincar, um leviano; ao chorar, um lamecha; ao chegar, um enxerido; ao partir, um egoísta.

Era em sonho, assim, que podia sonhar com a liberdade, que, a despeito do patriarcado, mostrava-se em uma bela moça de vinte anos, o que em nada denota virilidade, mas um suspiro aliviado da distância da velharia. Corria nua, helenisticamente, ao som de uma harmônica e alta canção, mais alta que a cadeira de balanço que rangia, eu bem sentia, logo ao lado.

Sábado, Novembro 20, 2004

Levantava sobressaltado, ou saltado, propriamente, que o grito que irrompia o seu sonho, saído em um devaneio do seu subconsciente da boca que quase beijara, punha-o de pé num pronto, como é esperado em situações assim de emergência, para logo ver, sem tempo para decepções ou rancores, o despertador avisar-lhe, como previamente combinado, que ei, está na hora do banho para ir para a aula.
Voltava rotineiramente para a cama, por dez minutos, acabrunhado junto aos lençóis, como que triste pela despedida aos puxões, sem tempo para adeuses. Pensava que um amuamento ficaria bem, pois mesmo bocas soniais guardam ressentimentos.
O medo do chuveiro estava como meio para que não desbotassem as imagens, todas elas, daquele infinito tempo que se perdia entre os segundos da ansiedade. Decidira - que, a partir de então, mesmo à noite, firmava-se como perfeito senhor de seus atos por julgar que assim moveria os peões, ao menos, de seu destino - pela passividade, tanto por já haver percebido que até agora todo o feito carecia de certa valia, quanto por, paradoxalmente, haver se disposto a degustar a bóia que os peões haviam posto ao fogo.
Do tudo em suma, tinha-se que seu lábio, em continência, o que menos queria era o momento tornado em frustração, prendeu-se em um riso bobo, um tanto quanto casto, escarmentava-se; as mãos agarravam-se às colchas, nem pela impetuosidade de suas vontades, mas para conveniência dos tremores; e o peito, ah o peito argüia volúpia, pois que ficasse a arfar como caldeira que parecia.
Com um tanto de orgulho, acordou, de fato, feliz, pela vitória de sua convicção. A toalha já ia aos ombros, mas foi aí que lembrou do cheiro, e bambeou, do preparamento escapava-lhe o menos adventício, bem o que lhe havia entregue, aquele cheiro, bom cheiro, e imprecou-se, ao inferno a necessidade de em sonhos ter que respirar.

Sexta-feira, Dezembro 03, 2004

Desculpem-me a fuga...
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Perdi em não poucas vezes. Voltava-me para mim, como se por um acaso fosse dotado de uma emoção que tomava e que dobrava você e as coisas ao nosso, meu e da emoção, sabor. Perdi mais por demais procurar do que por, de fato, não dispor. A primeira veio da boca que em exagerado se abria; a segunda, da confiança que se declarava despropositadamente; a terceira, da insistência infinda, já de um desesperado, não mais de um tolo envolto em considerações. A quarta, fatalmente, veio de dentro.
Achei-a por acaso, escondida em um maço de cigarro apertadinha, meio que fazendo querença da unha para tornar-se considerável, de ponta-cabeça, jeito que arranjou de me sacudir as idéias. Guardei-a para depois, usando da protelação capa para o medo do inevitável.
Saiu decidida, atirando-se por si só, e nisso minha mais íntima vontade apelava para que não fosse, caindo à calçada, como que desajeitada, como que envergonhada, como que temerosa pela mais-dor que sua queda causava a quem a assistia do que a quem, realmente, a sentia - a perda. Pisei-a com certo ânimo, não que desejasse sepultá-la, mas o seu remorso simplesmente não permitia que eu conseguisse viver.

Segunda-feira, Novembro 01, 2004

A ebriedade subia-lhe a cabeça, que já dançava por si só a essas horas, e refletia sobre a vida, bonita como lhe disseram diversas vezes. O céu o inundava de azul e a vontade que tinha era de se afogar em tanto, um tanto que passava mas que lhe tomava com certa propriedade, como se pudesse ser de qualquer um, desde que o encontrasse descalço e exposto à friagem. Pensava que tudo bem o mar tinha vigor e se mostrava tal qual vivo sendo que nem vivo e morto lhe cabiam, que tudo bem o vento bocejava e ensinava que se não está para o mundo, o mundo o encontra onde quer, mas decidiu, e nesse momento se arrependeu, é na batida de pé que a terra treme, que está perdido, que o vento já passado se escondeu, que o mar que molhou já não molha, que a grama que viceja já se pisou, e que a vida está perdida. O que se espera ainda pode vir, mas as lembranças, por mais que se façam puras por todo o sempre, já nascem cunhadas de dor, daquela que aperreia e faz ensopar o lençol, pois tudo que é belo sem ser apreciado não o é, e vida apreciada é a vida que já se foi. Parou, então, não para acabar com a ordem, mas para se dispor à fealdade, só assim, só assim se acaba com os pensamentos que não engradecem o espírito, mas perturbam o coração.
É, concluía, é que a vida, e aí pausava, é tão bonita, mas está perdida, perdida.

Domingo, Outubro 31, 2004

Por tudo o que ouvia nas rádios e na boca pequena, que apesar de seu diminuto tamanho era a que mais tinha para falar, concluíra que o mais importante nessa semana em termo era o tempo, o céu, os astros, sei lá como se chama, Não, não era o eclipse, quem arrumou de dizer que lua escura era espetáculo se lua nova tinha todo mês. A preocupação era com as bandas de lá, com a terra de São Vicente, onde, e nisso via um sinal do fim dos tempos, inda mais perto de Finados, deram por exigir que, na terra da garoa, fizesse sol, não no Ibirapuera, mas no Anhangabaú. Tanto por tanto, se a nata carioca, para espairecer, tricotava da bunda do Gerald Thomas, os industrialitas gostavam de ir à praia para vislumbrar uma imagem com mais do que três tons cromáticos.

De qualquer forma, encarava como uma espécie de beleza, um retorno a um primitivismo ritualístico, astrológico, primordial, à outorga do poder de determinação e do controle da sorte aos Deuses, pois repara que se escolher entre a corneadora arrogante e o peixe morto, que, em estado de putrefação apresenta leves sinais de fascismo, não cabe a qualquer um, então quem sabe Guaraci seja capaz.
O momento é de oração.

Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Queria-me ao lado, mas me pus na frente. A mesa de café apresentava-se junto com o cheiro de pão e de queijo, a sua companhia, e uma estranha dor no pescoço. Fui eu que inventei de baixar a cabeça, ou fui eu que inventei de olhar para o lado, enquanto você dormia. Enquanto você dormia, eu me encolhia, já julgando que se sua presença, além de tudo o mais, tirava-me o sono, a minha pelo menos furtava-lhe os sonhos. Despertávamos inquietos, de cá ainda teria que escovar os dentes, de lá ainda teria que visitar a porta. Tranqueia-a, agora. Admito que a campainha é um pouco insistente, mas me soa como um clamor que se confunde entre o que se viveu e o que se imaginou. A mesa nem mais posta está, antes assim, que, se do torpor da paixão, se livra a saudade, no gosto que fica, eu construo amizade.

Sexta-feira, Outubro 22, 2004

Até em sonhos?
É sufocante...

Quarta-feira, Outubro 13, 2004

Prendo-me alheio a mim
e me relego ao escuro.
As dores da vida, no meu expurgo,
tatibitateiam as músicas que colei em fuxico,
para me fazer chorar, bem sei,
que o que já foi, ao ir,
tirou-me as esperanças e me puxou para longe,
de tão alvoroçado.

Resto-me em desabrigo,
empanturrado com tantas curvas.
As mãos já tiveram da beleza, pelo menos,
porque o mais seria se a beleza tivesse tido daquelas mãos.

De tudo, porém,
derruba-me o que nem foi percebido,
o que nem foi permitido,
o que, de tão singelo, entrou,
como que escondido,
por entre os risos da minha retina.

Isso é meu,
até porque meus olhos fecharam-se, logo em seguida,
para que eu sentisse a felicidade.

Segunda-feira, Outubro 04, 2004

O anúncio do toque, esse me descompraz.

Não que me apeteça a frieza,
A distância misantrópica do contato em separado,
Do rosto beijado de lado,
da mão que anseia tanto por esquadrinhar, quanto por se lavar;
a fenda da cama deitada sem coberta, na fuga do cheiro insistente,
instigador de memórias ascosas -
obsedações do lamento.

Na verdade, desarranja-me a incompletude
Não a já feita, mas a que se insinua,
espreitando-se leviana entre os caprichos que a mim chegam:
Escarnece do meu arrepio,
inventando de alcunhar de inocência
o que eu chamo de desejo.

Assim, agarro-me à não-espera, disponho do vencilho,
Preencho com viço, a evitar a frustração.
Entende, pois, que se exijo o teu silêncio,
Não é porque me nego aos teus gemidos, mas é que insuporto o teu não.

Quarta-feira, Agosto 25, 2004

Confissão

Uma vez, menino, sonhei com uma lagoa
A chuva choveu e por três dias escureceu
no alto; a terra assentou, a rua empoçou
embaixo.
Mainha chorava, a casa alagava -
eu tinha pena, rezava. O temporal se foi, só ficou uma garoa.

Eu era menino e não tinha um trampolim.

Quinta-feira, Agosto 12, 2004

Vivo desde o dia em que me abriram
aquela porta, e, por um não-passo
loquacíssimo, penetrei-te,
monasticamente, deixando lavrar-me,
nodoamente, em infito deleite.

Recordo o último instante
em que senti, em mim,
qualquer asseio, qualquer agrado
de não ti. A realidade do meu mundo
fez, do istmo, vento; e entreguei-me,
em laisser-aller, enfim,
a viver o lamoso claustral que é possuir
alguém para me ter.

E ali, então, fingindo saudade,
reclamei da pouquidade, forjei desapego.
Mas já não sou capaz:
acompanha-me em vida a felicidade,
e hoje tanto me atenho em sonhos ao abraço à lápide
Mais do que ao adeus no cais.

Sexta-feira, Julho 30, 2004

Lembro-me do dia em que fizemos as chaves
Arrumei o seu espaço, falou em trazer o cachorro
Pude ouvir com clareza a vizinhança
Comemorar nossa felicidade -
Até eles aplaudiam.

Você conjecturava sobre onde caberia
E eu, cá dentro, ria, achando bobo que ainda não soubessse
Que não precisava de caber,
Pois estaria o tempo todo junto a mim.

O cachorro por aqui nunca latiu, é verdade,
Como o é que de mim menos se ouve risos do que choros.
Da chave pelo menos posso me recordar tranqüilo:
É com ela que a empregada me visita duas vezes por semana.

Sexta-feira, Julho 09, 2004

O último momento

Debrucei-me sobre a janela. Fiz isso por achar bonito, todos sabem que os poetas debruçam-se sobre as janelas e, hoje em dia, para se sentir alguma coisa, tem que ser poeta. Abri a persiana, juntei ao meu lado uma cadeira para quando o cansaço dessa meia noite me abatesse, e tirei a camisa, pronto para o meu sentir.

Ao alto, um céu rosa, porque o Rio de Janeiro tem um céu rosa à noite, quando o tempo não está tão limpo. À minha frente, meus vizinhos, os da outra rua, que nem sabem que eu existo, posto que, tanto para mim quanto para eles, o que existe nessa cidade são apartamentos, em que vez ou outra alguém transita por dentro deles cortando a luz (a única que tem coragem de se mostrar), quando tudo está escuro.

Em dado momento do meu momento sozinho e sensível, senti-me nu. De fora a camisa que se ajeitava junto com a poeira no canto do quarto, senti-me nu porque todos olharam para mim. Nunca me expus tanto ao mundo, posso jurar, justo quando me decidi por pensar só. Em cada janela iluminada, um rosto se afigurou, fitando-me com os olhos. Nos que as cortinas cerravam o vento, primeiro veio uma mão abrindo uma brecha, e depois o olhar invasivo. Envergonhei-me, e dei graças a Deus por ter posto a cadeira logo ao lado. As pernas bambas forçaram um apoio.

Olhei o céu, procurando por saber se ele também me encarava. O que vi foi um movimento, um tumulto, nuvens se achegando como para ver o que acontecia. O olhar foi interrompido por uma gota, no meio do meu rosto. E outra, após outra, gritando para que eu deixasse de ser besta, que sensibilidade medíocre não chama a atenção de nada, o que o povo estava ali para ver era a chuva que se mostrava nesses tempos estivais de inverno. Nuvens zombeteando.

A janela rangeu sobre meu pescoço. A estrutura velha de madeira não agüentava água, o que não era de todo o mal, servia como um aviso para que essa minha cabeça esquecida fechasse a janela quando o toró chegava. A janela cedia, anunciando-se como uma guilhotina. Cairia, independente de quem estivesse ali, metido fosse.

Mas não desisti tão fácil. Cidade prática essa, não é só a vida agitada que nos tira da espiritualidade - mesmo o clima anda às voltas para evitar essas tentativas exóticas de reflexões. Petulante, estendi mais ainda meu corpo sobre o parapeito. A chuva o lavou com vigor.

O mundo viu-me irredutível, e acho que isso fez diferença. As nuvens passaram, os olhares se fecharam, a janela se aquietou. Novamente só, depois da devassa. Nesse ínterim, fui mais de outros que de mim, e mesmo a morte mostrou as caras. Sentado aqui, no seco, percebo que os estranhos olhares não estavam ali para tratar de chuva coisa nenhuma, mas para aviltar-me, pois veja que insolência essa minha de procurar enxergar a vida, se mesmo a minha persiana verde tem algo de mais sensato que esse céu rosa do Rio de Janeiro.

Segunda-feira, Julho 05, 2004

Não te quero mais:
Já sei que não te quero.
Tentei pela calma, mas o desespero
Aninhou-se de um tal que a persistência não mais me apraz.
Te jurei a paciência,
Mas me ofereceste o desmazelo.
Por insistir em não querê-lo,
Gritaste-me um traidor.
O que mal sabias é que o meu amor
Pode até ser bobo, mas não gosta de apanhar.

Terça-feira, Junho 22, 2004

Desejo a minha entrega com meu amor e rosto de menino. Desejo o desvario amplo, dos que cabem em nosso beijo. Quero é que faltem olhos, se te olhar for todo o meu problema; quero o fim do meu poema, o termo dos tolos, a vontade de ter medo.
De ti não desejo nada: tenho-te já num pronto. O que me falta - o que maltrata é que me tenho tanto - é dar-me para ti, pois sou inteiramente teu.

Sábado, Junho 19, 2004

Meu lar (fragmento)

E quando estou sozinho
Saio da onda e ando pela praia
Escrevo seu nome em cores claras
Já que o verão está chegando
E quem sabe se o nosso amor
Resistiria ao sol
Se a lembrança do inverno
Ainda não é apenas lembrança

E quando estou sozinho
Entrego-me aos meus caprichos
Experimento o proibido
E gozo em uma maçã
Apago as minhas feridas
E esfolo o sofrimento
Mas aí já está tarde
E eu de tão covarde
Tenho medo de dormir

Terça-feira, Junho 15, 2004

Gravitação em torno do seu nome. Quando tudo parece oscilar para a estabilidade, o corpo já perambula para a placidez, as mãos titubeiam até para um leve aceno, quando a tristeza se espairece com o costume e a conformidade toma seu lugar junto a mim, só nesse quando seu nome inquieta.

É a confusão reclamando seu ofício, eu sei. O lençol grita pelo enrolo e o colchão pelo peso, mas só o meu; a música enternece com a saudade e a caneta desconsolada se ajusta como pode sobre a mesa. Daí que tento me conformar que não é você, não vem de você a vaga, sua brincadeira que transtorna a alma, às vezes, é só descompromisso. Daí que penso que culpa, por culpa, ninguém tem, mas é que, se se inquieta com seus assuntos, calho de me perturbar com você.

Daí que seu nome, que tanto gosto, execro; daí que sua imagem, em que tanto penso, repudio; e é por isso que falar em você vira sufoco. Ruim é que não consigo evitá-lo, mas essa confusão anda me saindo uma companhia, no mínimo, inconveniente.

terça-feira, 19 de maio de 2009

Domingo, Maio 30, 2004

Verbo

Não suporto o meu gosto
E não gosto do que suporto
Não me vejo no que vejo
Nem mesmo recebo as flores
Que, em seu mundo, seus amores
Recebem quando o têm.

O que me oferta são só palavras
Mas, diabos! Palavras já tenho demais
E, até hoje, nenhuma delas dormiu comigo.

Quarta-feira, Maio 19, 2004

Amanheceu com vontade de correr. A praia se oferecia, plácida. Decidiu-se pela rua, pelo meio dela mesmo, com o asfalto a esfolar-lhe os pés e o barulho dos carros os ouvidos. Bom assim que não sentia inveja de tanta calma, além, é claro, de evitar o medo de se atirar ao mar, em desespero pela busca de paz.

Correu, correu, sem se preocupar nem com os sinais que, vai saber se foi por susto, pararam todos para vê-lo em seu exercício, se aquilo isso fosse. A rua uma hora daria em um fim, ou dele ou do mundo que, se tinha data para acabar, deveria ter um lugar de término também.

O suor escorria pela face, indo pingar na camisa grossa que vestiu para sufocar o coração pulsando. Sabia disso pelo sal molhando-lhe a boca, além da sensação de um estranho peso em suas costas, ombros e pernas. Seu corpo exauria-se, concluía, e uma hora tudo cairia no chão como uma massa disforme. Conseguiu ainda esboçar um leve sorriso no rosto. Mas cair, que era bom, nada caiu.

Por outro lado, o peso inventou de crescer enormemente, a ponto do homem não conseguir mover-se em velocidade normal, numa marcha lenta que chamava mais atenção do que a corrida ensandecida pela cidade.

Estranharia, se estivesse conseguindo pensar, mas a última coisa de que tem notícia é a de seu pé desprendendo-se do chão para nunca mais voltar. Os punhos fechados compunham com os cotovelos dobrados uma postura atlética. Atlética e estática.

O povo acudiu, com a rapidez de auxílio que só o povo tem. Primeiro chegaram puxando pelo braço, que, de duro, parecia pedra. Alguém lembrou de olhar o coração, sabe-se lá se ainda bate! Os que vinham não pelo acontecido, mas pelo tumulto, perguntavam-se quando a prefeitura havia colocado mais uma estátua na via pública, bem no meio dela, quem adivinha onde essa mania de estátuas vai parar.

Do meio da aglomeração, uma mulher precipitou-se. Aquele homem, homem não, o seu marido havia saído de casa sem nem tomar café, tão afoito, que parecia que uma hora colocaria as tripas para fora. Estava ali, imóvel, vamos ver se agora não atentava para os conselhos que a esposa dava.

Aproximou-se aflita, pelo homem e pelo sucesso de sua aparição pública (a rua parara, é verdade), chegou no ouvido do marido e, alisando o cabelo de seu homem, como boa e carinhosa mulher, chamou-o pelo nome.

Diante da falta de resposta, o que auscultava o coração sentencia: bater, não bate, mas morto não está, se não, não se segurava em pé. Uma movimentação, burburinho, alguma gargalhada. Todos se voltam para a esposa, como reagiria diante dos fatos, um marido-estátua, onde já se viu isso!

Enchendo o peito, tendo mesmo ajeitado o cabelo, lamentou, em tom elevado, valendo as costas do novo monumento como púlpito: coitado! E logo ele que odiava pombos!

Segunda-feira, Maio 17, 2004

O dia amanheceu frio, um frio insensível que me negava o sol. Ipanema deserta, largada, cobria-se com areia para que o mar gelado e violento não a maltratasse demais. Ventava muito e as ondas chegavam às alturas. Nesse dia frio, as areias decretarem-se mortas, dizem que pelo mar ter se mostrado tão vivo. Algo a ver com ciúmes.
A solidão reclamava atenção aqui dentro. Fazia tempo que não cuidava dela, havia de estar com fome ou chorando por carinho. A certa hora, quem quase chorou fui eu, mas não me arrisquei a sentir aquela agüinha escorrendo em minhas bochechas. Tremia só de ver aquele monstro bufando em minha frente.
O meu casaco, com sua ineficiência, esfregava no meu peito que havia algo em mim mais frio do que a Ipanema deserta.

Quarta-feira, Maio 12, 2004

Acordou um dia, pela manhã, e sentou-se, ainda meio atordoado, como pôde, na rede, para poder aproveitar como lhe fosse possível os primeiros momentos da vigília, exatamente aqueles em que não estamos vigilantes por completo. Eram os melhores momentos do dia. Nem em tanto sono - de forma que não tivesse consciência que não vivia -, e nem em tanto dia - de forma que soubesse, e por isso sofresse, que vivia.

A vida tornara-se um fardo desde que, desde que, desde que dormir e acordar era uma mera sequência, sequência troncha, por sinal, e daí que é necessário falar que, neste dia, ele acordou pela manhã. A voz de alguém, voz de um dono da voz, chamou-o pelo nome ao que, usando da boa educação que recebera, retribuiu com um sorriso amarelo não-escovado e cheirando à barata. Pronto, o atordoamento já era.

Levantou-se devagar, em direção ao banheiro. Debruçou-se na pia e jogou água nos olhos, de um tão desajeitado que as águas foram realmente aos olhos, e aquela conhecida sensação de secura, de quando os olhos estão molhados, incomodou-o. Olhou para o espelho para ver-se desgrenhado, que era assim que julgava serem as pessoas ao natural, e viu aquela mancha vermelha no seu rosto. Passou a mão devagarzinho sobre as bochechas para ver da onde vinha o inchaço.

Mas inchaço aquilo não era, o que pôde perceber quando, ao chegar-se ao espelho para observar melhor, notou que a mancha subira à sua testa. Estranhando, olhou para as próprias mãos, do jeito que se faz quando se estranha algo. A mancha estava lá, redondinha, no meio da sua palma. Julgando ser consequência dos olhos molhados e irritados com a grosseria, foi deitar, era bom que dormia mais e tinha um pretexto, pois que com olhos não se brinca que olhos são delicados e sensíveis.

Três quartos de hora mais tarde acordava novamente. Olhando para o teto, ainda deitado, distingüia ali, entre o ventilador e a parede branca, o vermelho insistente. Tapou um dos olhos com a mão, e o vermelho foi um pouquinho para o lado. Tapou o outro olho, e a mesma coisa (se bem que em lado inverso). Resolveu deixar para lá, essas coisas de estresse ninguém entende, porque não dá para viver assim, desse jeito, tão assim, nesse mundo - ruim! meu Deus.

Tomou o café e foi à rua, ele e a sua mancha. Foi até a padaria - o café de hoje tinha sido sem leite -, onde quase riu com a cara do padeiro pintadinha de vermelho. Quase, porque rir doía sua barriga, havia de ser a falta de costume. Dali para os próximos minutos, iria entreter-se em maquiar as pessoas nas ruas: virava para alguém e o borrão cobria-lhe a face, em outro a cabeça, em outro o tronco, em outro lá se ía o corpo todo, pois que o borrão crescia, a tal ponto dele pensar, não sem um tanto de ironia, que precisaria de um pára-brisas do jeito que a coisa ía.

Voltou para casa, pois já estava arriscando a cair no meio da calçada, sem saber por onde metia os pés naquele chão vermelho. De volta ao banheiro e ao espelho, procurou enxergar, entre um e outro buraco de sua tinta ótica, se algo em sua aparência mudara. Recuou um pouco ao descobrir que sim: não só "algo", mas estava ali, explícito, que toda a sua face ruborizara-se por completo, sem excluir o branco dos olhos e dos dentes.

Correu para o sofá que se estendia na sala, oferecendo-se para a reflexão. Não estava vermelho, burro de pensar isso, o seu olho é quem via errado, culpa sua, que olhos são delicados e sensíveis. Devia ter cuidado, sua mãe falava que esse negócio de não ir ao médico um dia causaria problema. Desesperou.

Ficaria cego, isso era fato, mas só por causa de uma irritaçãozinha - e por água? Não, a vida era ruim demais para piorar.
Começou então a sentir uma sensação estranha. Um tremor, a respiração pesada, rápida, e o diafragma contraindo-se fora do normal. Assustado, percebeu que um filete da mancha esmaecia, em um rosa sinuoso que descia pela visão. Sua mão molhou-se. Chorava.

A percepção daquele riozinho rosa intrigou-o. Então era tinta mesmo, como seria problema na vista se pôde ver, claramente, a mancha escorrendo pelo seu rosto? Depressa, correu para a cozinha, lavaria aquilo, aquela nuvem que não o permitia enxergar. Lavou uma, duas, três, lavou várias vezes, e nada. Sentou-se no chão, com as mãos na nuca, destruído pelo que estava acontecendo. Sabia-o, é claro, mas era difícil de aceitar.

Aquilo era vergonha, não uma vergonha, mas a Vergonha, a sua, e seu rosto e braço e perna e corpo e o mundo resolveram corar-se por completo, para estampar para qualquer um que aquilo não era vida de gente.

Sexta-feira, Maio 07, 2004

Chegara exausto de mais um dia cansativo na sua interminável (assim parece ser) jornada cotidiana. Desde que se mudara para aquela cidade, sua vida repetia-se fatidicamente a cada espaço de tempo suficientemente longo para que tivesse uma aflitiva sensação de que não passava de uma desprezível peça do atraente e complexo sistema a que estava atrelado, executando, submisso, ordens e comandos. Sua existência arruinara-se de tal forma, que cada passo traduzia-se numa acalentadora certeza que estava mais próximo do fim. Nesse dia, previsivelmente, abriu o portão de casa e sofridamente dirigiu-se para a porta. Por um momento, ocorreu à sua cabeça que seu corpo estava mais pesado do que o de costume; ou então, ocorreu ao seu corpo que sua cabeça insistia para que ele não se movimentasse. De fato, não andava, projetava uma perna para frente, vacilava, e arrastava o restante de sua massa.

Abriu a porta com dificuldade. Na verdade, abriu-a sem vontade. Não tinha pressa alguma, o tempo não lhe corria, e os minutos imperdoáveis de sua vida insistiam em demorar dez minutos para passarem. Entrou, acendeu as luzes e parou por um momento. Por que teria que repetir exatamente todos os dias os mesmos passos? Naquele dia, seria diferente.

Foi então à sua cozinha apertada, mas terrivelmente ampla para alguém que morava sozinho e cuja fome dependia somente da sua falta de vontade de comer. Procurou algo na geladeira, e diante da frustração de não achar nada além de um pacote de leite velho, resolveu impulsivamente beber leite. Derramou pacientemente dentro do copo descartável, por várias vezes reutilizado. Levou-o à boca, esforçando-se para não sentir o cheiro do gosto azedo que o leite (?) exalava (desceu dolorosamente, em meio às tentativas de expulsão por parte do seu corpo). Apertou os olhos, franziu a testa e respirou aliviado. Já havia se livrado da necessidade de alimentar-se naquele dia.

Passeou pela casa em direção ao quarto. Como era bonito o dia ali, entre aquelas paredes brancas, inofensivas, aconchegantes; longe das ensolaradas manhãs, alegres, mas hipócritas; gentis, mas inóspitas. Chegando ao quarto, tirou sua roupa e a jogou de lado sem zelo, apanhou um calção que se segurava no trinco da porta e o vestiu. Olhou-se no espelho, e não achou a sua imagem. Estranhou um pouco, mas não se admirou; há tempos que não olhava para si mesmo. Chegou um pouco mais perto, e novamente perdeu-se numa imensidão desconhecida, onde reflexos piscavam em frente a sua real personalidade. Apalpou o rosto, ao passo que sentía um corpo estranho tocar sua face. Virou-se, agora sim assustado. Procurando não pensar mais nisso, pegou um pedaço velho de jornal, sentou-se na velha e desgastada poltrona e começou a ler.

E leu sobre casas alugadas, vendidas, compradas; leu sobre carros, animais e objetos; leu ofertas de emprego; leu uma oferta de uma nova vida. Pelo espelho, via-se um pedaço de jornal aberto sobre uma poltrona. Quem chegasse mais perto, enxergaria gritos de "Procura-se"; e mais perto ainda, enxergaria um sussurro de "Alguém para me achar".

Quinta-feira, Maio 06, 2004

Simular a separação
Forjar uma oposição
É que, às vezes, anda tudo parado
Quando não tenho estado
Em estado de tristeza

Não que tenha apego ao fim
Mas algo pede, em mim
Um tanto de subversão
Livrar-me da situação
Pois a incomodar mais
Está o acômodo
E a chorar mais
Está a falta do choro.

Bom é quando tudo desaba
Acaba
Qualquer forma de chão em que tudo se apóie.
Quando a barriga esfria
E se fode a tranqüilidade
Pois a estabilidade
Mais destrói do que constrói

A separação não mais me preocupa
Dela se ocupa meu gesto de adeus

A oposição carrego em meu ombro
Pois distância nenhuma causa maior assombro
Do que a entre a realidade e meu corpo, que esse é só meu.

Quarta-feira, Abril 28, 2004

Quando parti, nem pude ver. As lágrimas que encheram-me os olhos, encheram-me também de dor, pois, na partida, tua imagem distante e pequena era o que eu mais queria como lembrança.

Ainda sinto os dedos perderem-se, para nunca mais se encontrarem. A mão levada, o amor seqüestrado, teu adeus embalado e chacoalhado.

Brigo com meus olhos por privarem-me dos meus sonhos

Sábado, Abril 24, 2004

Esse texto eu fiz antes de ir para Natal, mas só pude publicar agora.

Espero por abril como quem espera por uma vida. Não por outra, mas pela minha. Porque minhas eram as acácias, e meus eram os jardins. Meu era o barro da rua, a cachorra magra que, de velha, late fraquinho, as paredes brancas que se escalava como se se escalasse o mundo.
Desejo o vento da varanda como quem deseja a felicidade. Não a futura, mas a que já tive. Porque já ri com os brinquedos, e já ri com o cinturão que me lascava as costas. Já ri com o banho de mangueira, com a brincadeira com os vizinhos.
Emociono-me é com meu tempo, que parece que já foi. Quando pequeno achava que só as pessoas envelheciam, mas hoje vejo que tudo fica, de uma certa forma, um pouco mais amarelado.

Quarta-feira, Março 24, 2004

Canção de Despedida

Tento imergir em mim
Para saber o que se passa em meu coração
Partir pro fim, enfim,
Cansei de vez desse sufoco da solidão

Não quero mais saber
Já perco as contas do que fiz para esquecer
O que me fez sofrer.
Prefiro assim a mais uma vez não ter você.

Quero um pouco de paz
Ter-me de volta, que estar contigo foi em vão.
Despeço-me do tempo, aceno à razão
Praparo-me para o que insisto em apressar:
Abro lentamente as cortinas
Deixo respirar o que tão logo expira
Aumento a música que é para não ouví-la
Gritar o seu grito sem dor.

. . .

Embala-me só agora
Mas o corpo morto que desprezou nem mais é meu
A luz que um dia a amou, arrefeceu
Não adianta se entregar pra quem não pode mais te ver.

E vou sem dar explicação
Porque não quero falsos choros ou lamentos
O que mais quero é o seu esquecimento
Pois se hoje morro, é de gostar do seu amor.

Segunda-feira, Março 22, 2004

Tento, sóbrio, encontrar
O que perdi, pois senti, quando se foi
O que nem vi, pois dormi, pra não entender
Procuro hoje, pois não mais vivo, onde está.

Aonde foi o meu carinho, aonde foi?
Cadê os pratos e as mesas e o coração
Dos sussurros, das palavras, não sei mais
Não sinto mais aquele olhar e aquelas mãos

Reluto em perceber, ao chão, descalço,
E faço da minha busca oração

"Passa-me um pouco do teu corpo,
Dispôe-te um pouco com atenção"

O amor só não resiste quando o outro
Esconde o desejo em paixão

Todo fulgor da juventude se esvai
Mas te apraz minha obstinação

Já o encanto é cansaço
E é carpida qualquer jura de amor.
Já o meu peito é exausto,
Já tua voz me soam gritos, já teu nome rima com dor.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2004

Às vezes, vejo-me metido em meio a pensamentos, absorto em reflexões, perdido entre o esgotamento e a não-perspectiva.
São momentos assim os mais críticos, quando não se pode falar que não se faz nada, pois a rotina é uma realidade que se prostitui a qualquer um; não se pode falar que se faz demais, pois o tempo lhe é tão extenso que só a possibilidade de ocupá-lo por inteiro pertuba os mais internos nervos do corpo.
É o meio-termo entre o desabrochar e o murchar, entre a euforia e a melancolia.
Sei lá que nome tem isso, sei que, para mim, vida não é.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2003

A solidão é, das sensações que o homem pode sentir no mundo, uma das piores. O sentir-se sozinho, muitas vezes, chega mesmo a confundir-se com a misantropia.
Naquela noite, por exemplo, o menino sentira-se sozinho, pela primeira vez desde a viagem de seus pais há 2 semanas. Quando o Sol já caía, trancou todas as janelas da casa, apagou todas as luzes, deitou em sua cama, e, no escuro, sob o lençol, posto que o próprio escuro lhe servía como uma companhia imprestável, masturbou-se.
Quando acabou, já suado e não mais agüentando o abafado da coberta, abaixou o lençol, oferecendo o corpo nu ao quarto trancado. Após esvair-se por completo do êxtase, sentiu-se desprotegido e com medo, virou-se de bruços, e dormiu, meio como pôde.

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003

Está chegando a data de que mais gosto em todo o ano. O Réveillon, sem qualquer espírito de renovação ou de promessas a cumprir.

É um encanto desde criança. No começo, nos idos tempos de escola, vinha junto com a expectativa de comprar uniforme novo, material escolar e conhecer os colegas novos. Por toda a adolescência, era a expectativa das férias que já se faziam cheirar, do veraneio na praia com muita gente conhecida junto.

É um encanto menos sublime, e até mesmo material, eu sei. Acho que, de alguma forma, tem a ver com meus problemas com o passar do tempo. O Réveillon é o único momento em que se comemora um fim, mas só porque se sabe que um começo vem logo ali.

Sexta-feira, Dezembro 26, 2003

Minha primeira música com Chico, um samba-canção de improviso (cada um cantava uma frase):

Tudo que eu fiz,
Foi por amor, tudo que eu fiz... (2x)

Então meu amor,
Me ouça um instante, um segundo,
Porque meu amor,
Sem você eu me perco no mundo.

Então meu amor, por favor...

---
É bobinha, mas tem sonoridade (desculpas...).

Terça-feira, Dezembro 23, 2003

Faz um ano que comecei a escrever aqui. Não exatamente, porque foi no dia de Natal.
Depois deste ano, gostaria de agradecer às pessoas que me visitaram freqüentemente, às que vieram ocasionalmente, às que me incentivaram a continuar escrevendo e, sobretudo, às que comentaram, pois é isso que estimula.

Valeu galera,
Feliz Natal a todos.

Segunda-feira, Dezembro 08, 2003

Já não sei mais se eu vi, ou se foi pura ilusão:
Vi o seu amor chegar e se encostar em meu colchão.
Vi abrindo portas, ouvi batendo o portão,
Vi suas roupas em meu armário e o seu sapato no chão.

Já não sei mais o que quero, se é o sonho ou acordar
Se é ver você partir, mas à noite esperá-la voltar:
Sentir o seu rosto no meu peito, fazer sua perna arrepiar
Tê-la em casa, ao meu lado, ou esperar você telefonar.

Já nem quero saber do que eu penso: quero é o toque da sua mão,
Ver o seu amor pulsar e se espalhar em meu colchão.
Tremer todas as portas, derrubar esse portão,
Rasgar as nossas roupas e, cansado, dormir no chão

E o partir seria o sono, e o voltar o acordar
O seu rosto: a minha prece; a sua perna: o meu jantar.

Sexta-feira, Novembro 21, 2003

Que maravilha do descompasso!
Nesses tempos tão cheios
Minha vida acaba sendo
um diário de um relógio.

Sábado, Novembro 15, 2003

Hoje eu andei na garupa de uma bicicleta, uma Ceci, daquelas antigas.
E carreguei uma menina na garupa da mesma Ceci também. A corrente saiu duas vezes, e várias pessoas riram de nós.
Até nós.
Brincar, esse é um remédio para a infelicidade. Não jogar, que isso é corruptivo, mas brincar mesmo. Pular, correr, rir, rir muito.
Sentir-se criança, eis aí um segredo para o congelamento do tempo. Quando se sente-se criança, o minuto é aproveitado, exaurido, resfolegando suado e pendurado no bebedouro que faz fila para dar de beber. É a completa celebração do ser no lugar do pensar. Ser com todas as implicações que ocasiona e com todo o conjunto de sensações, reflexões e brincadeiras - isso sim - que traz consigo.

Ser e sentir o mundo parar para ver você sendo, ouvir o mundo curtindo a sua risada e perceber o vento sorver, em gotinhas, o seu suor de entusiasmo.

Terça-feira, Outubro 07, 2003

Sabe quando às vezes você se imagina girando, girando, girando, de braços e olhos bem abertos?

Nesse momento, a impressão de que se tem é a de que se sente tudo e ao mesmo tempo nada, de que você pode ver tudo, enxergar tudo, mas é tão rápido que as coisas passam e você nem se dá conta. O vento que se sente nos braços e que suas mãos parecem querer tocar é um pouquinho de cada lugar, mas você só o sente também quando até o lugar já passou.

E você roda, roda, roda, e depois de um tempo rodando, a idéia do seu peito aberto recebendo tudo aquilo é trocada pela suas conjeturas sobre qual o momento certo de parar, para onde estar voltado quando parar, o que receber, o que sentir de verdade, o que ver de forma calma e serena.

Até parece que nesses instantes estamos sem rumo. Mas que nada! Não temos rumo algum, na verdade só giramos, sem sair, em nenhum momento, do mesmo lugar.

Sexta-feira, Setembro 26, 2003

Pecinha

Há tempos já diziam
Que no mundo só existiria
Amor, harmonia e paz

Que mais?

Há tempos já se ouvia
Que algum dia ninguém faria
O que hoje o homem faz

Que mais?

Há tempos se comentava
Que novo tempo já chegava:
Mundo novo nasce,
E o mundo atual jaz

Que mais?

Descortine-se, arreiem os cenários
Chama o diretor,
Porque o contra-regras errou na iluminação

Terça-feira, Setembro 23, 2003

Cidade quente, e muito barulho, e muita conversa, e muito carro, e muita gente...
O Rio de Janeiro te sufoca às vezes, cidade quente...
Sinto que perdi espaço, que não tenho onde ficar nessa quentura.
Vou para casa e, sinceramente, a única coisa que espero, espero mesmo, é que o elevador esteja já no 1o. andar... pelo menos.

Segunda-feira, Setembro 08, 2003

As ofertas estão à mesa. Tento servir-me, mas não sei se posso pagar. Nem sempre nós podemos custear o nosso estômago. Tento provar da salada, encher-me na entrada, e beliscar sobremesas. Banqueteio. Tomo um suco, e descanso com o peso no corpo. Pesa tanto, que não consigo dormir. Viro de lado, e me incomoda. Viro de frente, e me é extremamente desconfortável. Penso que exagerei e que não deveria ter comido tanto. É tarde. Terei agora de conviver um tempo com todo esse excesso e depois arcar com as conseqüências. E com o pior de tudo: como vou encarar o tão esperado jantar, aguardado por três semanas seguidas? Como vou provar da verdadeira boa comida, se já estou farto de coisas supérfluas e que só foram boas por momentos? Queria muito perder a mania de estragar o meu filé por causa de feijão com arroz.

Quinta-feira, Setembro 04, 2003

Mar e falésia, falésia e mar,
Quem diria que o amor ainda há.
Por mais que as ondas se chocassem
De explosão, extraía-se contato, energia e emoção.

Do agito, do balanço, da harmonia e dos conflitos,
Onde vagueiam caravelas e sonhos, aventuras e esperanças,
Avista-se um fim, por vezes provável, por vezes certeiro,
Unindo êxtase e tristeza, fuga e vida, ilusão e escuridão.

Do confronto, do impacto, do transtorno e da revolta,
Vira e em meia volta, calma, saudade, mansidão, tranqüilidade
E a dor atrás, constante, pulsante
Com o tambor à frente, ritmado, visível e feliz

Atira-se ao mar, molha-se de sensações
Nada velozmente, e esquece da tormenta.
Falésia e mar, mar e falésia
Quem diria que o amor ainda resta!

Sábado, Agosto 16, 2003

Que subam nuvens, e que a névoa entonteça.
Que a fumaça inebrie, como o cheiro forte do metal
Que mundos desabem e que balas tilintem
Enquanto houver o caos, a razão está a salvo.

Que o vermelho inunde o meu rosto
E que a cor púrpura tinja teu peito
Que haja explosão, erupção
Enquanto houver dinâmica, o amor está a salvo.

A confusão, Perdido, é a glória da nossa vida
Sem ela, não há sentido,
Sem ela, não há direção

Pois se há um sentido desnecessário, vês que esse sentido é a visão
Se vives assim desorganizado,
Glorifica-te como esse soneto, perdido na confusão.

Terça-feira, Agosto 12, 2003

É, ontem fizeram de tudo: pintaram, melaram, jogaram pedras, baldes, potes, colocaram faixas, expuseram-me...
Mas não teve jeito: adorei a faculdade!

Quarta-feira, Agosto 06, 2003

Levanta o chapéu sobre o rosto, e sente o sol queimando-lhe a face. Olha para aquilo que queima, e arregala os olhos. Assim, pode sentir o calor lhe cegando, tornando sua visão vermelha e dolorida. Faz isso em sinal de penitência: culpa-se por ter nascido, por ter que viver cada mísero dia, por ter que passar por toda a dor, sofrimento e pena, mais uma vez.

Ameaça sair de casa. É sempre ruim essa necessidade de sair de casa. É mais ou menos a mesma coisa que acontece quando lhe dizem que precisa tomar banho. E toma o banho, livra-se da sujeira, deixando seu corpo e roupas prontos para mais um lote de poeira e lixo. Tira cuidadosamente cada folha de papelão e cada caixa que cobrem os seus pés, suas pernas imundas, e metade do seu tronco. Guarda tudo em um canto - deu trabalho conseguir ter um lar. Olha ao redor, agora sentado, à procura de algo. Uma mulher passa apressada e quase o atropela. Ele sente o cheiro dela, e fareja seu pensamento. Alguém havia de dar um jeito em todo aquele lixo que infesta a cidade. Tateia o chão, cuidando de achar o resto de pão que sobrara da sua refeição no dia anterior. Nada.

Sentia o impulso em levantar, para poder ir atrás de comida. Mas seu peito dói, sua cabeça vagueia por aí, e seu ânimo nem existe mais. Bobagem, dor é sentimento nobre e indigno de mendigos. Assim como os bichos, ele não dói, ele não sente. Não, ele nem vive, existe. Mas alguma coisa falta. Seu pão e alguma coisa faltam.

Em sua mente de mendigo, e em seu pensamento de mendigo, informações medíocres se batem e explodem a fim de acabar com aquela agonia. A lembrança da vida antiga e o incômodo daquele esquecimento repentino o fizeram refletir - vagabundamente, ao invés de estar trabalhando - sobre a sua situação, sobre a sua existência, sobre sua mendicância, e sobre seus sentimentos.

E era tão bom em matemática! Podia calcular quaisquer números. De dois e de três, fazia qualquer conta de mais. Passeava nas portas das padarias, somando e se lembrando do quão pobre era, em vista de todos aqueles preços. Em história também. Sabia tudo sobre qualquer lugar da cidade, gostava de conhecer coisa besta, coisa que demanda ócio, ócio impróprio para ele. Daria um ótimo político, sua mãe dizia. Sua mãe sempre sonhadora.

Afastou-se de tudo, da mãe e dos sonhos. Partiu então para uma vida no mar, onde podia banhar-se todo o tempo, onde sentia a água no pescoço a todo o tempo, e onde encharcava sua desilusão a qualquer hora.

Não foi a única vez na qual se afogou. Houve aquela em que se meteu com uma puta de cabaré e acabou adoecendo. Do corpo e da alma. Enquanto se coçava, se contorcia com a estranha falta persistente. Seu dia-a-dia ia se reduzindo, definhando, e tudo por vontade própria. O porquê ninguém sabia. Nem ele, jurava a si mesmo.

Hoje, longe daquele passado bizarro - mas não distante o suficiente para estar em paz - caminhou solitário, e como sempre, atrás do tal pedaço de pão. Passou por algumas quadras e teve uma certa visão. Olhou os detalhes, somou os personagens e aprendeu os eventos. Via-se ali, moço importante, segurando o maior número de pedaços de pão possível. Morava naquela casa, à beira do mar, um palacete de papelão. Na porta, esplendorosa, placas com dizeres legíveis para qualquer um, mendigos ou gente: "Aqui mora o Doutor Político João". Emocionou-se com a cena. Nunca mendigo algum comeria pão igual ao dele.

Terça-feira, Agosto 05, 2003

Desde pequeno fui de sentir aquele gosto na boca. Não posso dizer com certeza, mas nem me admiro se foi ainda no berço quando o metal enlameou minha língua pela primeira vez.

Cresci toda a minha mocidade com aquele sabor férreo e constante. Vez por outra, podia ser na hora do almoço ou mesmo no pré-sono, brindava-me com aquela visita. E, com ela, insinuavam-se pelo meu corpo imagens, sons - gritos ou apitos, fininhos no ser -, cheiros e até uma dor, pequena, quase não dor, mas jurava que sentia. Uma sinestesia maravilhosa de encanto, loucura, transcendência e dinâmica.

Encarava-o já normalmente. Éramos já um, o gosto e eu. Lado-a-lado, acostumei-me com sua presença, e até procurei tirar-lhe algo de agradável, afinal de contas, ninguém nesse mundo conhecia mais que eu aquele cinza saboroso.

Foi assim que passei a associá-lo com o meu estado de espírito. Desse dia em diante, o quarto dia do oitavo mês, descobri que só o metal me bastava, e que sem ele, nada saberia sobre mim mesmo.

***

Foi uma espera intensa. Dia após dia, a inquietude era certa. Até que chegou uma tal manhã de meio-dia. Eu ouvia-o já em meus sonhos, um zumbido, um barulho, rápido e crescente. Saí de casa afoito e entreguei-me ao primeiro vento que passou.

Corri, voei, e joguei-me. Ela passou rápido, mas eu sentia a aproximação a cada milésimo de segundo. Não vi meu salvador, nem percebi a cor dos seus óculos escuros. O calibre 38 chegou redondo, mas pontudo.

Estava de costas. É uma pena. Não pude nem vê-la.

E aquele gosto metálico. O tal gosto metálico, exatamente como eu havia imaginado.

Sexta-feira, Agosto 01, 2003

Ciranda da Bailarina

Procurando bem
Todo mundo tem pereba
Marca de bexiga ou vacina
E tem piriri, tem lombriga, tem ameba
Só a bailarina que não tem
E não tem coceira
Verruga nem frieira
Nem falta de maneira
Ela não tem

Futucando bem
Todo mundo tem piolho
Ou tem cheiro de creolina
Todo mundo tem um irmão meio zarolho
Só a bailarina que não tem
Nem unha encardida
Nem dente com comida
Nem casca de ferida
Ela não tem

Não livra ninguém
Todo mundo tem remela
Quando acorda às seis da matina
Teve escarlatina ou tem febre amarela
Só a bailarina que não tem
Medo de subir, gente
Medo de cair, gente
Medo de vertigem
Quem não tem?

Confessando bem
Todo mundo faz pecado
Logo assim que a missa termina
Todo mundo tem um primeiro namorado
Só a bailarina que não tem
Sujo atrás da orelha
Bigode de groselha
Calcinha um pouco velha
Ela não tem

O padre também
Pode até ficar vermelho
Se o vento levanta a batina
Reparando bem, todo mundo tem pentelho...
Só a bailarina que não tem
Sala sem mobília
Goteira na vasilha
Problema na família
Quem não tem.

Procurando bem
Todo mundo tem...

(Edu Lobo e Chico Buarque/1982)

Quinta-feira, Julho 24, 2003

Estavam ainda na mesa de jantar quando o conhecido barulho, vindo da sala contígua, despertou a atenção da família que comia em paz. Precipitaram-se. A menina, filha única do casal até os três anos de idade, olhou para o irmão que a tirou dessa condição há 15 anos. Houve um prenúncio de movimento dos dois.

Foram barrados, no entanto, pelo olhar pesado do pai, sentado costumeiramente na cabeceira, presidindo aquela reunião a que ninguém além dele e de sua mulher fazia questão de comparecer. O telefone tocou novamente.

Uma forte garfada da mãe no prato de porcelana, seguida do movimento quase violento que metia aquele filé aproveitado do almoço no fundo de sua boca, puxou a atenção de todos para a mesa. Pois que sabiam que era um absurdo distrair-se em um ato divino, que mesa é sagrada e dá-se muito para conseguir o que comer, e que a companhia de seu pai e sua mãe é muito mais importante do que qualquer amizade que venham a ter na vida. Os meninos não levavam muito a sério isso de amar sobretudo os pais, adorar não, que só se adora Cristo.

Nesse momento, o caçula repudiava com força qualquer idéia de família. Se sacrifícios necessitassem de ser feitos para poder namorar, ou falar com a namorada, nunca ouvira, porque todos de sua turma namoravam, mesmo tendo pais, se bem que o dele era um idiota, fissurado em mandar, que se danasse, iria embora de casa. Casaria, para ser pai, só para permitir que alguém atendesse, que Deus tinha algum amor, aquilo que já incomodava do barulho na sala ao lado.

A pródiga não! Essa largara as idéias subversivas há algum tempo. A vontade de retirar-se do jantar era unicamente porque havia marcado de falar com as colegas sobre um trabalho escolar. Teria que entregá-lo no dia seguinte, e já passava das nove. Se bem que não daria tempo e sua barriga já estava cheia.

Pensou nas idéias abandonadas. Bem que lera que cedo ou tarde a família como instituição acabar-se-ia, que entulho já servira em algum momento, mas depois havia de ser jogado fora. A visão daquela mulher à sua frente beliscando-lhe com os olhos e exigindo-lhe conduta mesmo em sua própria casa a irritou profundamente.

Que se indignassem, que batessem. Estavam prestes a morrer aqueles dois, ao contrário da flor da juventude. Por um instante, o ódio reinou na sagrada mesa. O pai, vendo o desamor dos filhos, percebeu, com um som já insuportável que estava mais para gritos ao seu ouvido, que sua casa se acabara. Bem que a mulher lhe havia prevenido de não comprar aquilo, que era uma praga, um telefone com fio, vermelho, ruína de seus valores.

Levantaram-se de súbito, ao mesmo tempo, as crianças. Desafiando qualquer imposição dos velhos sentados em expectativa, correm para a mesinha colocada no canto da sala de estar. O aparelho esperneava. De nada adiantaria continuar com a obediência. Decidiram, ali, enquanto corriam, cortar relações com eles - aquela ligação era realmente importante.

O pai olhou perplexo para a mulher, que se voltava, enquanto ele levantava-se já puxando o cinturão das calças. Aos empurrões, os jovens "lutaram" pelo fone, atendido com uma voz suave pelo futuro homem da casa: alô?

Sentindo a irmã esconder-se às suas costas, temendo o castigador que avançava em sua direção, o menino volta-se assustado, incrédulo.

Era engano.

Quarta-feira, Julho 23, 2003

Copacabana esconde muitas coisas.

Fala-se muito da beleza da praia: daquela curva de que Deus com certeza tanto gosta e se orgulha, e daquelas curvas - todas elas - de que os que têm alma e que já a viram tanto gostam e com elas se emocionam.

No entanto, da Copacabana cidade, mal se fala. Uma Copacabana caótica, Copa-Canudos moderna que, na falta de um Messias, guia-se ora em igrejas encaixadas sabe-se lá como no meio daqueles edifícios, ora em templos e casas de devoção que dividem o espaço de suas calçadas com os apostadores do Bicho, mendigos, prostitutas, loucos, e meninos em bicicletas levando mercadorias para lá e para cá.

Copacabana acorda todo dia meio que assustada, sem entender muito bem o que acontece consigo. Não entende muito bem o que fazem todos aqueles carros, o que faz todo aquele barulho, o que são todos aqueles prédios que, de longe ou de perto, de tão grudados parecem só um e, sobretudo, não entende o que é aquele burburinho que coça as suas corcovas, empestadas de casas (ou quase isso), quando não cortadas por imensas feridas que cheiram ao pior.

Essa Copa velhinha provavelmente se arrepende de ter visto como glamour quando o primeiro palácio rasgou-lhe as entranhas e ergueu-se de suas areias. Suas montanhas ainda tinham vista para o mar, e sobretudo o mar ainda avistava as suas montanhas. Não é que até esse namoro conseguiram acabar! A água foi obrigada a recuar, e a paisagem lhe foi negada.

Eram os guardiões da princesinha.

Hoje ela é velha, coitadinha, e não faz nada direito. Achando-se protegida, seus guardiões lhe tiram por vezes o Sol. O seu mar nunca foi tão de outro. Com dificuldade, recorda dos tempos em que tocavam para ela ao violão - hoje, o máximo que consegue ouvir são músicas de cabarés.

Hoje a Alteza perde-se numa Copacabana de luxúria, vícios, desordem. Ah! Tanto desrespeito a uma senhora de idade.

Terça-feira, Julho 22, 2003

Não sei o porquê de lançar-me à caneta
Se só consolam-me os teus afagos,
Se não sinto quando não em teus braços.

Não sei o porquê de amargurar a solidão
Se esta já está tão bem assentada
Pois de ti, nunca terei nada além de lembranças.

As palavras ditas ao acaso
Não sei o porquê de ouvi-las como sussurros
De ignorar a diferença do simples saudar para o amar.

E é a ignorância, disso eu sei,
Que me põe assim,
Feliz, por ver que a tristeza vem de ti
- algo tão belo, e que tomo assim por tão meu,
mesmo que só eu saiba.

Terça-feira, Julho 22, 2003

Você ouve primeiro os tímidos passinhos. Um barulhinho diferente dentro de você, gostoso de ouvir.
Depois, sente sua temperatura. Aquele calor, mesmo fraquinho, mas que o faz esquentar e conforta como nenhum outro.
Aí percebe o seu peso. Você não sabe exatamente em que lado está "incomodando" mas se mantém naquela sensação de virar-se, revirar-se, inquietar-se, mal poder dormir.

É nesse momento que ela lhe entrega a lembrancinha que trouxe consigo: um sorriso leve, no canto da boca, e que não sai de lá por muito tempo.


A felicidade é tão boa quando chega sorrateira!

Sexta-feira, Julho 18, 2003

O que não é o vazio!
Não saber o que fazer,
não saber p'ra que viver,
Nesses dias de estio...
Bom é quando está chovendo
O barulho da chuva no chão
Dá o ritmo para o meu coração
Sentir que não está morrendo.

Sexta-feira, Julho 11, 2003

*** Para ser lido antes que comentem a qualidade do poema a seguir (meu nome é pretensão!).***

Reparem na rigidez linda da forma.
Reparem na beleza da métrica.
Reparem na harmonia das rimas.

Ah! Vai-te para a estante, forma nojenta, soneto do diabo, que é lá onde devem ficar os clássicos!

*** Pronto! Eis aí um desabafo literário.***

Sexta-feira, Julho 11, 2003

Já é o tempo do fim da mocidade!

Enquanto me aguarda a senilidade,
Desfaço-me da futilidade:
Assumo com certa gravidade,
O fim da suposta liberdade.

Enxergar que os prazeres da cidade
Nada passam de pura falsidade
A mim convém com certa felicidade:
Há tempos percebo esse ar de improbidade.

Mas não está em todos a capacidade,
De se livrar da desonestidade:
Alguns vivem eternamente na mediocridade.

Ah! É uma delícia da maioridade:
Poder esquecer da sociedade,
Para tentar viver uma maturidade.

Quarta-feira, Julho 09, 2003

E eu achando que se emocionar com bobeira iria embora com a idade, e que, sem sentimento, eu estaria pronto para o mundo.
É, bom que eu seja imaturo ao ponto de poder me enganar.

Segunda-feira, Julho 07, 2003

Ser deixado é a pior coisa que existe.
Minto - pior é ser esquecido.
O esquecer, abandonar, é a demonstração nada afetuosa de que a pessoa não merece ao menos um "não", um "não te quero mais".
O abandono é pior do que o desprezo, esse pelo menos é um não gostar com consideração. Aquele, nem isso.

Terça-feira, Julho 01, 2003

Para sentir a vida
que, sim, lá fora o chama
ei! amigo, toma você um carro
Larga esse sarro
que dá na sua cama
corre para a rua
e vai, amigo, sentir o vento
Porque achar que é sofrimento
ficar deitado cantando p´ra lua
Há tempos saiu da moda
E se até seu pai quer esquecer
do passado, não há que se viver
nesse romantismo de se negar a foda
Para se pensar no amor.

Para sentir a vida
Que ao ócio aversa é
Parte, amigo, p´ra dar um pulo
onde antes você execrava, o xulo
Vai visitar um cabaré
Sentir o álcool regar o seu caminho
ouvir a canção brega o embalar
no ato belo que é se deitar
com a puta, p´ro amigo largar de ser sozinho
Nessas noites de junho
porque se a mente a poesia engrandece,
a jovialidade a boêmia enaltece
e vai o amigo decidir, a próprio punho,
Parar de vez de pensar no amor.

Sexta-feira, Junho 27, 2003

Junho acaba, e com ele vai-se a conversa sobre minha terrinha: o Nordeste nunca é tão Nordeste quanto nos festejos juninos. Isso deve-se especialmente a São João, o verdadeiro dono da festa. Depois de entrar para a história como o homem que batizou Jesus Cristo, São João deveria ter seu papel no Brasil como o homem que batiza o Nordeste, conferindo-lhe personalidade e deflagrando sua diversidade cultural.
A cena das fogueiras ardendo aos brilhos dos fogos só não é mais bonita do que você poder ver, a 2000 km de distância - em uma cidade maravilhosa, mas que não te prende pelos pés - um país se rendendo às comidas e danças, aos hábitos e músicas do seu povo.

Quinta-feira, Junho 26, 2003

Reencontro

Late, corre, abraça, abre,
Entra, senta, fala, come,
Lava, canta, seca, veste,
Deita, tenta, sonha, voa.

Chove... chove...

Sábado, Junho 14, 2003

O sofrimento


Sempre entendi por sofrimento a mais pura expressão da dor, ou seja, uma batida fina e forte no joelho que o joga ao chão e o faz apenas gritar, porque a dor é tão grande que não saem lágrimas dos seus olhos.
Desde o primeiro momento em que tive essa sensação até os meus idos 16 anos acreditei piamente nessa definição.
Anuncio, alardeio e, de quebra, aviso que mudei completamente os meus conceitos. Hoje sou seguro para receber o sofrer como uma nuance da alegria, aliada a uma inquietação extenuante.
Assim como a alegria, o sofrimento é um momento de perfeita sintonia consigo mesmo. Raros, nesses instantes você questiona-se, olha para si próprio e reage a isso. Assim como na alegria, o sofrimento é capaz de colocá-lo em prantos, deixá-lo histérico e fora de si. Sofrer e alegrar-se tiram-no o sono, a fome, e preenchem seus pensamentos de uma forma monopolista e exclusivista. Os dois são tão "um" que impressiona.
No entanto, a inquietação do sofrimento bebe-lhe as forças, enquanto a alegria as revigora. Não há quem resista disposto a uma noite de sofrimento, e nisso ele assemelha-se ao sexo.
Sofrer exige um banho gelado, a alegria um banho quentinho.

Constatadas diferenças, aproveito também para confessar minha compulsão por sofrer. Gosto do sentir-me exaurido, acabado por ter sofrido, mas não me acho estranho por isso.

Num pensamento de última hora, acho que todo mundo é assim. Melhor mudar tudo isso: sofrer tem mais a ver com gozar do que com sorrir. Pudera! O que se pode esperar de algo tido como la petite mort?

Terça-feira, Maio 27, 2003

Uma mente cansada você percebe pelos olhos perdidos no ar;
Um coração cansado, pelo corpo estendido no chão.

Domingo, Maio 25, 2003

Tênues fronteiras

Eu vejo pessoas. Sempre as vi, mas de uns anos para cá, passei a ouví-las e dialogar com elas também. Vejo, ouço e falo com pessoas que não existem.
Espíritos, fantasmas, ou mentiras minhas mesmo, vejo, ouço e falo com mentiras.
O que me intriga, no entanto, é a certeza, a convicção de que elas não existem.

Acredito e tenho como conceito que a existência é a atmosfera em que se situa o real. O imaginário - ou irreal - se situaria em outra atmosfera, na da não-existência. Digo isso para efeito de raciocínio. Sendo isso aceito como fato certo, haverá de haver (que maravilha), nesse fato, uma fronteira, uma divisão, um limite, mesmo subjetivo, que venha demarcar (para nenhuma outra razão a não ser a da nossa compreensão) a distinção entre uma e outra atmosfera, para que assim possa ser feita a colocação nelas de todas as coisas que conhecemos. Onde está essa fronteira então?

A resposta estaria em nossos sentidos. O sentir prova o real. Porém, graças à atividade sapeca do nosso cérebro enquanto dormimos, experimentamos, todas as noites, um sentir íntimo, egoísta e delicioso, mas que é, reconhecidamente, irreal. Nos sonhos vemos, ouvimos, choramos, rimos. E o que é mais impressionante: nos sonhos profundos, daí excluindo os chamados "sonhos lúcidos", não temos consciência de que aquilo é irreal. Acreditamos, ou seja, vivemos (porque viver é acreditar, em última instância), uma irrealidade, sem saber que assim o estamos fazendo. Perdemos nossas vidas e tempos com os sonhos, guardamos lembranças dos sonhos...

Ah! As lembranças! Um ou outro diria que a prova de que o sonho é, propriamente dito, um sonho é que não nos lembramos dele cinco minutos depois de termos acordado, ou, em outro caso, temos recordações perdidas e confusas. Mas, por outro lado, nunca ouvi de comprovação que, enquanto sonhamos, temos lembranças límpidas e continuadas dos nossos não-sonhos.

Pessoalmente, entendo que a realidade está no compartilhamento. Não se sonha junto, então não se sente, enquanto se sonha, junto. Na realidade, você vê, vira para o lado, e pergunta: você viu? Você fala e alguém te escuta, você chora e alguém te ampara, ou te ignora, mas reage a você. Esse entendimento, no entanto, oferece-me a mais profunda inquietação diante do que se estende à minha frente. A concepção da realidade como uma recepção mútua de sensações (mesmo as não expressas) é a que mais simplifica o homem, por o distinguir apenas das pedras e coisas inanimadas, que não necessitam de mais nada para "viver". Por outro lado, é a que mais o individualiza, por ele ser, nesse modo, o único ser capaz de ter noção da sua existência e da importância do outro não apenas para a harmonia social, mas para algo anterior a isso, a harmonia existencial (algo como: eu existo na minha para que você exista na sua).

Domingo, Maio 25, 2003

Passei um tempo acreditando na validade universal do meu conceito. Hoje, contrariamente, pensei em duas situações a que ele não se aplicaria, sendo assim, em todo o resto, inválido.

A primeira é a das minhas pessoas irreais. Pensei nos cultos de candomblé, ou do espiritismo, em que pessoas parecidas com as minhas são vistas, ouvidas e sentidas por mais de uma pessoa (real). Nesse caso há o compartilhamento, mas mesmo assim, têm-se perfeitamente ciência de que aquilo está em outra atmosfera, a da não-existência (ou então em um trânsito constante entre as duas).

A outra situação é uma civilização isolada onde, por alguma mutação genética, a maioria da população nascesse sem o paladar. A civilização correria normalmente, com exceção de alguns indivíduos que, de quando em quando, nasceriam com a suposta habilidade de reconhecer o tão irreal gosto das coisas. Provavelmente, eles seriam desacreditados ou, possivelmente, organizar-se-iam em grupos, quem sabe até de cunho religioso (o gosto seria visto como sintoma da presença divina e o primeiro a ter paladar como um messias). Nesses grupos, seria compartilhado um fato para eles concreto, mas que para todo o restante da sociedade seria irreal.

A realidade seria então relativa? Para mim, ela parece um grupo de elementos escolhidos por um consenso como ambiente para situarmos nossas vidas. Essa volubilidade assusta, por mais infantil que possa parecer.

Sexta-feira, Maio 23, 2003

Hoje, por tudo, corre-se.
A vida só é tida como viva quando é corrida. Por isso que a criança não tem a vida em sua plenitude, porque por mais que corra, não é mister que o faça.
E hoje, não se vive na diversão, vive-se na necessidade.
Corre-se para dormir, para acordar, para trabalhar, corre-se para poder correr mais, corre-se para mostrar que está correndo, e assim, vivendo.
O movimento tomou o mundo.
O movimento possibilitou ao homem, paradoxalmente, um reposicionamento na empreitada que é a reconstrução do tempo passado, pueril, lúdico. Ao correr, o homem busca a economia do tempo, para que não se perca mais um pouco da jovialidade que é tida como única vida. É a busca da estática pela dinâmica. Corre-se procurando um tempo livre, quando não é percebido que nessa procura o que o homem mais está é perdendo tempo.
O tempo em que não se corria não volta, porque há muito que se perdeu a grandeza de inteligência de não saber correr.

Quinta-feira, Maio 22, 2003

Corre a noite, corre rápido
E corre o menino, tropeçando
Passa a noite, porque roda a lua
E passa o menino, porque as noites passam.

Um dia, de noite, o menino corria
Até que parou, pensando,
meio indignado
Que se a lua não rodasse,
a noite não passaria,
e o seu eu-menino não passaria,
Pois seu tempo teria parado.

Por um dia que jazerá em noite
O menino agora anseia
Pois, hoje, a sua felicidade
É a noite parada,
cristalizando uma lua
morta, cheia.

Terça-feira, Maio 20, 2003

A razão é doença da alma: eis que lá está a alma, a alma calma, e a razão chega para fazê-la hesitar.
A hesitação é, pois, o sintoma da doença-razão. A diferença - pertubadora - entre o que se quer fazer, e o que é tido como o que se pode fazer.
Nos ínfimos momentos em que hesitamos antes de um beijo, de um tapa, das calças abaixadas, do prato devorado, nesses momentos, um modelo (que ninguém gosta, mas todos seguem) nos esmaga.
E isso tudo por causa da ética... A Ética - perdão - é mais forte que a política, que a moral, que a própria sociedade. Improfanável. soberana.
É por causa dela que não conhecemos o verdadeiro prazer: o beijo beijado sem olho, o tapa dado sem remorso, a calça rasgada com furor, o prato comido com o sabor nem sentido...
Por causa da ética (que provavelmente é uma velha em uma cadeira de balanço que range) que confundimos sentimentos com sensações. Essas, o gostinho do prazer. Aqueles, passaporte para o desfrute.
É por causa da ética e dessa porra de razão que passamos a vida toda achando que vivemos, quando na verdade perdemos tempo.

Terça-feira, Maio 20, 2003

Entre o sal e sol...

Está no S do sal,
Está no S do rio... aquela curvinha de rio...
o hoje Canto do Mangue me prende com seu poder de S,
aquela volta do Potengi que meneia minha vida
segurando-me em saudades, lembranças, e o pôr-do-sol do Largo da Pátria

Está no S do sol,
Naquele calor de Sol...
calor que brilha, que acende, que faz chorar

Entre o S do sal, do mar vez azul, vez verde,
sobe a cidade, e se esconde uma natal, natal pequena, com letra minúscula,
naqueles paredões de dunas que a guardam,
em oferenda para o sol, que a corteja, e parece que brilha mais ainda
quando olha para ela.

Quinta-feira, Maio 08, 2003

De tragédias e receitas, o Prazer

Arme-se um palco! Que se encene a história de Cupido e de Psique. Só o Amor capaz de tornar a Alma feliz, e da união dos dois, a Volúpia! Não se admire! Ou você realmente achava que em mundos de euteamos, corações, vermelhos e luares não havia lugar para o Intenso Prazer? Sempre assim... Olhos só se abrem quando nos espantamos. Vê só: com as mesmas letras com as quais você goza a vida, deliciando-se e desfrutando de cada momento em seu viver; você goza imerso em prazer, na sua mais sexual conotação. Gozai com a vida!

Sim! Glorifico o prazer! Se não me envergonho? Mas, nem só de pão vive o homem, que o digam vitaminas, proteínas, sais e carboidratos. Pois, faça sua receita, sirva-se do banquete. E então? Medo de não virar um santo? Ora... Vai dizer que você usa o xampu enquanto se ensaboa? Já não te disseram que para as bandas de lá estão comprando água a altos preços?! Claro, você tem água, tem do seu pão, já deve ter tido um pouco de afeto também (mas por pouco que seja. Lembre da última vez que recebeu um beijo, levante a cabeça e diga [sem racionalidades, por favor] "Ah, já fui amado!")... Então: parabéns! Você tem uma vida apta a lhe proporcionar o mais genuíno prazer!

E agora? Usufrua! Não! Não se desespere, nada precisa ser impensado. Não conceda a qualquer um, ou a qualquer coisa, a honra de lhe proporcionar ou de partilhar o seu prazer. Torne-o único; faça-o especial. Não o ponha tão embaixo, onde os ratos podem comer do seu queijo: coloque-o na última prateleira, junto com seus santos. Enrole-o em papel velho, e o posicione ao fim de escadas desordenadas, pelas quais até você pode se perder, só para ter uma enorme felicidade ao abrir aquele embrulho (onde o conteúdo vale mais do que a pele, totalmente descartável) e provar da deliciosa sensação de achar que o esforço valeu a pena.

Se, por brincadeiras mais que antigas da vida, você já provou demais dessa sensação, tente aumentar as escadas. Inove, experimente, teste. Tente algo novo, deguste o sabor exótico de frutas desconhecidas. Mexa com gostos, cores, formas e acessórios. Monte um bolo diferente. Você não precisa ser igual a alguém pra ser o mais especial. Nunca esqueça: o seu prazer é único. Nunca alienei a imposição de limites à sua libido, nunca permita julgamentos. E a quem quiser te cercar, um conselho simples: mostre-lhes o quanto são intensas as suas sensações. Aproxime-se, teso, e lamba-lhes o rosto. E, em unção, esfregue o seu sêmen nos peitos. Que se cole assim sentimento a emoção.

E já profetizo: o homem só viverá em paz quando puder gozar com tudo e com todos sem pudores. Haverá um feriado para a celebração da Luxúria, e os pães nem serão mais tão importantes assim.

Quinta-feira, Maio 08, 2003

Tenho pena da criança que brinca sozinha com seus brinquedos, sendo aquela sua maior diversão e ocupação...
Assim como tenho pena do dia passado ligeiro, corrido, nem percebido.

A pena é do tempo, pois o tempo é de ter pena

Pena de mim por não ser a criança,
E pena de mim por não ter mais os dias
- tantos dias.

Quarta-feira, Maio 07, 2003

I want to walk with you
On a cloudy day

(...)

And I want to wake up with the rain
Falling on a tin roof
While I'm safe there in your arms
So all I ask is for you

(...)

"Putz...!"

I´m a creep, I´m a weirdo,
What the hell am I doing here?

Quarta-feira, Maio 07, 2003

O tempo corrói,
O tempo arranha,
E o Fim - mal supremo -,
Dá a ele seu caminho para pulsar
Porque tudo só existe verdadeiramente
Pelo cabo, tendo assim o seu tempo.

É assim que o momento
Só é momento por não mais existir
A felicidade só acontece
Por encontrar a dor a seu fim
E a infância deixa de ser um tempo vivido
Para ser um tempo esquecido.

Tempo de lascívia,
Prostituto e vulgar
Entrega-se a todos,
E com delicada perfídia,
Atua magistralmente,
Disseminando aquela dor
De quem sofre pelo tempo
(sobretudo vulgar).

O tempo é a sina do desesperado
É a causa maior de todo
E de qualquer sofrimento
O tempo é o maior tormento
De quem vê na morte o fim desejado
Porque junto com alívio,
O que mais ela oferece é o próprio tempo.

28/12/2002 13:44

O barulho pertuba.
Aproxima-se, abre espaço, aconchega-se, e folga.
O barulho barulha.
Martela, tamborila, uiva, silva.
O barulho incomoda.
Persiste, agride, não sente e não ouve.
E nem deixa ouvir.
O barulho é hoje o arquétipo da ignorância.
O barulho é o fim de uma paz inalienável, embora extingüível: a sua.
Barulho é símbolo de guerra, à serenidade, à tranqüilidade.
Esta, por mais que eu não consiga definir - para assim a ter -, posso titulá-la: o inverso do barulho.
Quis um dia Deus que só houvesse tum tum quando não houvesse toc toc.

26/12/2002 08:46

Quanto tempo dura uma vergonha?
Uma não sei, mas A Vergonha, essa safada, demora o bastante para existir.
Se, ao sentí-la, você a leva para almoçar, jantar, passar a tarde juntos, ela persiste - e por muito.
Se, no entanto, você dormir imediatamente, A Vergonha será exangüe, e padecerá junto com o primeiro canto de pássaro.
O que se percebe é que Ela só existe enquanto há alguém para nela pensar. Como, por provisão divina, o nosso sono é plácido e preocupado com coisas sobre-mundanas, deixamos nele a vergonha de lado, passando a ser apenas uma lembrança não querida.
A única coisa que cura realmente uma vergonha é o Lexotan.

25/12/2002 12:25

Pode ser muito divertido, mas amigo-secreto é uma farsa.
Não falo pela veracidade do segredo, mas pelos (re)encontros acompanhados de abraços e galanteios sugeridos pelo jogo com pessoas que, quando muito, tudo que você conhece sobre elas é o sobrenome - já que, devido à essência do momento, é igual ao seu (mas que coisa!).
Para mim, a grande diversão da brincadeira é ansiar impacientemente (o que é demonstrado pela euforia de todos ao participar) para que um embrulho caia em minhas mãos, pois o que eu dei (e no qual foi um bom dinheiro) já saiu delas há muito.
Deveria, pois, ser tudo reformulado.
As pessoas, cada qual, dariam presentes para si próprias. Em um dia marcado, todos abririam o agora-verdadeiro-galanteio, um na frente dos outros - sem correr o risco do fingimento de não saber para que serve e gostar mesmo assim, ou não saber mesmo três dias depois quem era teu "amigo" (e põe secreto nisso) -, exibiriam o conteúdo do auto-ofertado, e confraternizar-se-iam animadamente.
Mas só os que se conhecem, porque tem que acabar com essa mania que família nasceu para viver junta.

25/12/2002 06:23

É Natal.
Escolhi especificamente esta data para o início desse espaço.
Quando se pensa em natal, pensa-se em batidas de sino ou em vindas de natal?
Não concordo com isso de natal ser consumismo.
E não é, assim.
O consumo vem com o décimo (que também é terceiro), sagrado para muitos (tanto quanto o que nasce). A data não, a data vem da história.
Por vim da história, é cultural. Por assim ser, merece ser festejada.
O significado? Você não sabe para que serviam brincos antes de usá-los, ou como criou-se a rede, para poder descansar gostosamente depois do almoço.
Não é necessário saber daonde vem o natal, almocemo-lo apenas - com vinho, que isso também a cultura consagrou -, que o sono já vem vindo, vem vindo o sono, e eu quero ter algo melhor para dormir do que uma manjedoura.