Tênues fronteiras
Eu vejo pessoas. Sempre as vi, mas de uns anos para cá, passei a ouví-las e dialogar com elas também. Vejo, ouço e falo com pessoas que não existem.
Espíritos, fantasmas, ou mentiras minhas mesmo, vejo, ouço e falo com mentiras.
O que me intriga, no entanto, é a certeza, a convicção de que elas não existem.
Acredito e tenho como conceito que a existência é a atmosfera em que se situa o real. O imaginário - ou irreal - se situaria em outra atmosfera, na da não-existência. Digo isso para efeito de raciocínio. Sendo isso aceito como fato certo, haverá de haver (que maravilha), nesse fato, uma fronteira, uma divisão, um limite, mesmo subjetivo, que venha demarcar (para nenhuma outra razão a não ser a da nossa compreensão) a distinção entre uma e outra atmosfera, para que assim possa ser feita a colocação nelas de todas as coisas que conhecemos. Onde está essa fronteira então?
A resposta estaria em nossos sentidos. O sentir prova o real. Porém, graças à atividade sapeca do nosso cérebro enquanto dormimos, experimentamos, todas as noites, um sentir íntimo, egoísta e delicioso, mas que é, reconhecidamente, irreal. Nos sonhos vemos, ouvimos, choramos, rimos. E o que é mais impressionante: nos sonhos profundos, daí excluindo os chamados "sonhos lúcidos", não temos consciência de que aquilo é irreal. Acreditamos, ou seja, vivemos (porque viver é acreditar, em última instância), uma irrealidade, sem saber que assim o estamos fazendo. Perdemos nossas vidas e tempos com os sonhos, guardamos lembranças dos sonhos...
Ah! As lembranças! Um ou outro diria que a prova de que o sonho é, propriamente dito, um sonho é que não nos lembramos dele cinco minutos depois de termos acordado, ou, em outro caso, temos recordações perdidas e confusas. Mas, por outro lado, nunca ouvi de comprovação que, enquanto sonhamos, temos lembranças límpidas e continuadas dos nossos não-sonhos.
Pessoalmente, entendo que a realidade está no compartilhamento. Não se sonha junto, então não se sente, enquanto se sonha, junto. Na realidade, você vê, vira para o lado, e pergunta: você viu? Você fala e alguém te escuta, você chora e alguém te ampara, ou te ignora, mas reage a você. Esse entendimento, no entanto, oferece-me a mais profunda inquietação diante do que se estende à minha frente. A concepção da realidade como uma recepção mútua de sensações (mesmo as não expressas) é a que mais simplifica o homem, por o distinguir apenas das pedras e coisas inanimadas, que não necessitam de mais nada para "viver". Por outro lado, é a que mais o individualiza, por ele ser, nesse modo, o único ser capaz de ter noção da sua existência e da importância do outro não apenas para a harmonia social, mas para algo anterior a isso, a harmonia existencial (algo como: eu existo na minha para que você exista na sua).
George...mó legal esses dois ultimos textos, achei muito interessante o tema, sei lá...essa coisa de sbjetividade e realidade eh meio confusa! Mas eu confesse ter me perdido em algumas palavrar...as vezes n da para acompanhar as suas "viagens"!
ResponderExcluirJulia | Homepage | 03-07-2003 09:22:32