Levanta o chapéu sobre o rosto, e sente o sol queimando-lhe a face. Olha para aquilo que queima, e arregala os olhos. Assim, pode sentir o calor lhe cegando, tornando sua visão vermelha e dolorida. Faz isso em sinal de penitência: culpa-se por ter nascido, por ter que viver cada mísero dia, por ter que passar por toda a dor, sofrimento e pena, mais uma vez.
Ameaça sair de casa. É sempre ruim essa necessidade de sair de casa. É mais ou menos a mesma coisa que acontece quando lhe dizem que precisa tomar banho. E toma o banho, livra-se da sujeira, deixando seu corpo e roupas prontos para mais um lote de poeira e lixo. Tira cuidadosamente cada folha de papelão e cada caixa que cobrem os seus pés, suas pernas imundas, e metade do seu tronco. Guarda tudo em um canto - deu trabalho conseguir ter um lar. Olha ao redor, agora sentado, à procura de algo. Uma mulher passa apressada e quase o atropela. Ele sente o cheiro dela, e fareja seu pensamento. Alguém havia de dar um jeito em todo aquele lixo que infesta a cidade. Tateia o chão, cuidando de achar o resto de pão que sobrara da sua refeição no dia anterior. Nada.
Sentia o impulso em levantar, para poder ir atrás de comida. Mas seu peito dói, sua cabeça vagueia por aí, e seu ânimo nem existe mais. Bobagem, dor é sentimento nobre e indigno de mendigos. Assim como os bichos, ele não dói, ele não sente. Não, ele nem vive, existe. Mas alguma coisa falta. Seu pão e alguma coisa faltam.
Em sua mente de mendigo, e em seu pensamento de mendigo, informações medíocres se batem e explodem a fim de acabar com aquela agonia. A lembrança da vida antiga e o incômodo daquele esquecimento repentino o fizeram refletir - vagabundamente, ao invés de estar trabalhando - sobre a sua situação, sobre a sua existência, sobre sua mendicância, e sobre seus sentimentos.
E era tão bom em matemática! Podia calcular quaisquer números. De dois e de três, fazia qualquer conta de mais. Passeava nas portas das padarias, somando e se lembrando do quão pobre era, em vista de todos aqueles preços. Em história também. Sabia tudo sobre qualquer lugar da cidade, gostava de conhecer coisa besta, coisa que demanda ócio, ócio impróprio para ele. Daria um ótimo político, sua mãe dizia. Sua mãe sempre sonhadora.
Afastou-se de tudo, da mãe e dos sonhos. Partiu então para uma vida no mar, onde podia banhar-se todo o tempo, onde sentia a água no pescoço a todo o tempo, e onde encharcava sua desilusão a qualquer hora.
Não foi a única vez na qual se afogou. Houve aquela em que se meteu com uma puta de cabaré e acabou adoecendo. Do corpo e da alma. Enquanto se coçava, se contorcia com a estranha falta persistente. Seu dia-a-dia ia se reduzindo, definhando, e tudo por vontade própria. O porquê ninguém sabia. Nem ele, jurava a si mesmo.
Hoje, longe daquele passado bizarro - mas não distante o suficiente para estar em paz - caminhou solitário, e como sempre, atrás do tal pedaço de pão. Passou por algumas quadras e teve uma certa visão. Olhou os detalhes, somou os personagens e aprendeu os eventos. Via-se ali, moço importante, segurando o maior número de pedaços de pão possível. Morava naquela casa, à beira do mar, um palacete de papelão. Na porta, esplendorosa, placas com dizeres legíveis para qualquer um, mendigos ou gente: "Aqui mora o Doutor Político João". Emocionou-se com a cena. Nunca mendigo algum comeria pão igual ao dele.
Dodico, Se você não encontrar razões para ser livre, invente-as. Li tudo, até aqui. Vou deixar um comentário lá no topo.
ResponderExcluirEdson Marques | Homepage | 05-05-2004 16:36:23
A larica de um miseravel eh foda... vem da dor, a grande droga de sua vida.
gabriel | Email | 24-10-2003 15:24:57
É hj!! Prepare-se George!!
Fê | 11-08-2003 08:36:49