Acordou um dia, pela manhã, e sentou-se, ainda meio atordoado, como pôde, na rede, para poder aproveitar como lhe fosse possível os primeiros momentos da vigília, exatamente aqueles em que não estamos vigilantes por completo. Eram os melhores momentos do dia. Nem em tanto sono - de forma que não tivesse consciência que não vivia -, e nem em tanto dia - de forma que soubesse, e por isso sofresse, que vivia.
A vida tornara-se um fardo desde que, desde que, desde que dormir e acordar era uma mera sequência, sequência troncha, por sinal, e daí que é necessário falar que, neste dia, ele acordou pela manhã. A voz de alguém, voz de um dono da voz, chamou-o pelo nome ao que, usando da boa educação que recebera, retribuiu com um sorriso amarelo não-escovado e cheirando à barata. Pronto, o atordoamento já era.
Levantou-se devagar, em direção ao banheiro. Debruçou-se na pia e jogou água nos olhos, de um tão desajeitado que as águas foram realmente aos olhos, e aquela conhecida sensação de secura, de quando os olhos estão molhados, incomodou-o. Olhou para o espelho para ver-se desgrenhado, que era assim que julgava serem as pessoas ao natural, e viu aquela mancha vermelha no seu rosto. Passou a mão devagarzinho sobre as bochechas para ver da onde vinha o inchaço.
Mas inchaço aquilo não era, o que pôde perceber quando, ao chegar-se ao espelho para observar melhor, notou que a mancha subira à sua testa. Estranhando, olhou para as próprias mãos, do jeito que se faz quando se estranha algo. A mancha estava lá, redondinha, no meio da sua palma. Julgando ser consequência dos olhos molhados e irritados com a grosseria, foi deitar, era bom que dormia mais e tinha um pretexto, pois que com olhos não se brinca que olhos são delicados e sensíveis.
Três quartos de hora mais tarde acordava novamente. Olhando para o teto, ainda deitado, distingüia ali, entre o ventilador e a parede branca, o vermelho insistente. Tapou um dos olhos com a mão, e o vermelho foi um pouquinho para o lado. Tapou o outro olho, e a mesma coisa (se bem que em lado inverso). Resolveu deixar para lá, essas coisas de estresse ninguém entende, porque não dá para viver assim, desse jeito, tão assim, nesse mundo - ruim! meu Deus.
Tomou o café e foi à rua, ele e a sua mancha. Foi até a padaria - o café de hoje tinha sido sem leite -, onde quase riu com a cara do padeiro pintadinha de vermelho. Quase, porque rir doía sua barriga, havia de ser a falta de costume. Dali para os próximos minutos, iria entreter-se em maquiar as pessoas nas ruas: virava para alguém e o borrão cobria-lhe a face, em outro a cabeça, em outro o tronco, em outro lá se ía o corpo todo, pois que o borrão crescia, a tal ponto dele pensar, não sem um tanto de ironia, que precisaria de um pára-brisas do jeito que a coisa ía.
Voltou para casa, pois já estava arriscando a cair no meio da calçada, sem saber por onde metia os pés naquele chão vermelho. De volta ao banheiro e ao espelho, procurou enxergar, entre um e outro buraco de sua tinta ótica, se algo em sua aparência mudara. Recuou um pouco ao descobrir que sim: não só "algo", mas estava ali, explícito, que toda a sua face ruborizara-se por completo, sem excluir o branco dos olhos e dos dentes.
Correu para o sofá que se estendia na sala, oferecendo-se para a reflexão. Não estava vermelho, burro de pensar isso, o seu olho é quem via errado, culpa sua, que olhos são delicados e sensíveis. Devia ter cuidado, sua mãe falava que esse negócio de não ir ao médico um dia causaria problema. Desesperou.
Ficaria cego, isso era fato, mas só por causa de uma irritaçãozinha - e por água? Não, a vida era ruim demais para piorar.
Começou então a sentir uma sensação estranha. Um tremor, a respiração pesada, rápida, e o diafragma contraindo-se fora do normal. Assustado, percebeu que um filete da mancha esmaecia, em um rosa sinuoso que descia pela visão. Sua mão molhou-se. Chorava.
A percepção daquele riozinho rosa intrigou-o. Então era tinta mesmo, como seria problema na vista se pôde ver, claramente, a mancha escorrendo pelo seu rosto? Depressa, correu para a cozinha, lavaria aquilo, aquela nuvem que não o permitia enxergar. Lavou uma, duas, três, lavou várias vezes, e nada. Sentou-se no chão, com as mãos na nuca, destruído pelo que estava acontecendo. Sabia-o, é claro, mas era difícil de aceitar.
Aquilo era vergonha, não uma vergonha, mas a Vergonha, a sua, e seu rosto e braço e perna e corpo e o mundo resolveram corar-se por completo, para estampar para qualquer um que aquilo não era vida de gente.
Adorei esse texto! Eh bem diferente dos outros, um tema que nao eh muito comum, mas que vc escreveu de um jeito legal, que nao ficou chato. Parabens! Beijao
ResponderExcluirHelena | 13-05-2004 18:32:46
Um humor sádico, com uma narrativa intimista... Começa-se a delinear um estilo. Com esse texto dá para percebermos que George já é escritor com certa maturidade. Digo isso pela facilidade com que aborda diferentes temas, com diferentes métodos. Gostei muito.
Gustavo Duarte | Email | 12-05-2004 14:20:12