Estavam ainda na mesa de jantar quando o conhecido barulho, vindo da sala contígua, despertou a atenção da família que comia em paz. Precipitaram-se. A menina, filha única do casal até os três anos de idade, olhou para o irmão que a tirou dessa condição há 15 anos. Houve um prenúncio de movimento dos dois.
Foram barrados, no entanto, pelo olhar pesado do pai, sentado costumeiramente na cabeceira, presidindo aquela reunião a que ninguém além dele e de sua mulher fazia questão de comparecer. O telefone tocou novamente.
Uma forte garfada da mãe no prato de porcelana, seguida do movimento quase violento que metia aquele filé aproveitado do almoço no fundo de sua boca, puxou a atenção de todos para a mesa. Pois que sabiam que era um absurdo distrair-se em um ato divino, que mesa é sagrada e dá-se muito para conseguir o que comer, e que a companhia de seu pai e sua mãe é muito mais importante do que qualquer amizade que venham a ter na vida. Os meninos não levavam muito a sério isso de amar sobretudo os pais, adorar não, que só se adora Cristo.
Nesse momento, o caçula repudiava com força qualquer idéia de família. Se sacrifícios necessitassem de ser feitos para poder namorar, ou falar com a namorada, nunca ouvira, porque todos de sua turma namoravam, mesmo tendo pais, se bem que o dele era um idiota, fissurado em mandar, que se danasse, iria embora de casa. Casaria, para ser pai, só para permitir que alguém atendesse, que Deus tinha algum amor, aquilo que já incomodava do barulho na sala ao lado.
A pródiga não! Essa largara as idéias subversivas há algum tempo. A vontade de retirar-se do jantar era unicamente porque havia marcado de falar com as colegas sobre um trabalho escolar. Teria que entregá-lo no dia seguinte, e já passava das nove. Se bem que não daria tempo e sua barriga já estava cheia.
Pensou nas idéias abandonadas. Bem que lera que cedo ou tarde a família como instituição acabar-se-ia, que entulho já servira em algum momento, mas depois havia de ser jogado fora. A visão daquela mulher à sua frente beliscando-lhe com os olhos e exigindo-lhe conduta mesmo em sua própria casa a irritou profundamente.
Que se indignassem, que batessem. Estavam prestes a morrer aqueles dois, ao contrário da flor da juventude. Por um instante, o ódio reinou na sagrada mesa. O pai, vendo o desamor dos filhos, percebeu, com um som já insuportável que estava mais para gritos ao seu ouvido, que sua casa se acabara. Bem que a mulher lhe havia prevenido de não comprar aquilo, que era uma praga, um telefone com fio, vermelho, ruína de seus valores.
Levantaram-se de súbito, ao mesmo tempo, as crianças. Desafiando qualquer imposição dos velhos sentados em expectativa, correm para a mesinha colocada no canto da sala de estar. O aparelho esperneava. De nada adiantaria continuar com a obediência. Decidiram, ali, enquanto corriam, cortar relações com eles - aquela ligação era realmente importante.
O pai olhou perplexo para a mulher, que se voltava, enquanto ele levantava-se já puxando o cinturão das calças. Aos empurrões, os jovens "lutaram" pelo fone, atendido com uma voz suave pelo futuro homem da casa: alô?
Sentindo a irmã esconder-se às suas costas, temendo o castigador que avançava em sua direção, o menino volta-se assustado, incrédulo.
Era engano.
Adorei essa!
ResponderExcluirDeza | 25-07-2003 17:14:11
mto boa george... adoro cronicas, e sempre me intrigou essa coisa d naum atender ligações na hora das refeições...
Fernanda | Email | 25-07-2003 01:48:22
Eita, foi mal ter ligado pra vc hj na hora do almoço...mas eu juro, era urgente. Bjos
Julia | Homepage | 24-07-2003 22:16:25