quarta-feira, 27 de maio de 2009

Sábado, Dezembro 18, 2004

O meu descanso era interrompido pelos gritos do velho. A sesta embalada pelo pé ao pé do alpendre cantigada pelos cochilos preguiçosos se perdia ao primeiro dos praguejos, como a perna folgada que se estende ao sofá e que se arruma rapidamente ao ouvir qualquer barulhinho com cheiro de repreensão.

Trabalhava às boiadadas do velho. O joelho às vezes se envergava, cantando junto com o arfado melodicamente que o resfolegar pedia fôlego, e nessas vezes o tanger se mostrava vigoroso, berrando o velho que responsabilidade é trabalhar ajoelhado se o joelho insiste em ir ao chão.

Comia ajustando-se ao compasso do velho. O pé tremia o assoalho se o relógio fora mandado para trocar a bateria, e eu tinha a certeza que se as coisas como a bateria não eram para sempre, o tempo do velho tinha algo de sempre, estivesse o sempre na constância ou na inexorabilidade. A madeira e a engrenagem ainda permitiam o sentar-se, mas à cabeceira estava o velho a lembrar que não abusasse, sem sobremesas ou repetições, o que arrematava, sabiamente, rouquidava, a glutonaria e o perdularismo.

Estava com o velho também ao caminhar, no reparo artificial aos passos que haviam de se mostrar graves e à postura que necessitava de consertos; ao cavaquear, na negação do fito dos olhos que me fazia de entregue, um promíscuo para o velho, ou que me fazia de curioso, um indecente; ao rir, um espalhafatão; ao brincar, um leviano; ao chorar, um lamecha; ao chegar, um enxerido; ao partir, um egoísta.

Era em sonho, assim, que podia sonhar com a liberdade, que, a despeito do patriarcado, mostrava-se em uma bela moça de vinte anos, o que em nada denota virilidade, mas um suspiro aliviado da distância da velharia. Corria nua, helenisticamente, ao som de uma harmônica e alta canção, mais alta que a cadeira de balanço que rangia, eu bem sentia, logo ao lado.

Um comentário:

  1. Pulando de link em link, cheguei aqui no teu blog, e fiquei surpreso qd vi a autoria destes ótimos textos! Parabéns, mesmo! Não sei se lembra de mim, mas quando vi o "Dodico", logo me recordei. Espero que esteja tudo beleza com vc, e parabéns pelo site, tentarei visitar mais frequentemente Abraços!

    Palpite | Email | 24-02-2005 01:03:02

    Agora, meu computador novo me permite ler seus texto! Confesso nao ter lido todos, porém gostei de todos os que li. Tá na hora de atualizar o ultimo ainda eh de dezembro... beijos!

    Júlia | 20-02-2005 17:08:12

    Não me canso de ler e reler, e reler, de voltar e rolar e desenrolar, cada fio. Não me canso de admirar e tentar ler essa estética que por bela pede que volte e que se entranhe. O mais que me aproximo não sei o que busco, tão menos o que me engano de encontrar. Já chega a doer.

    Eu | 13-02-2005 16:09:04

    Não me canso de ler e reler, e reler, de voltar e rolar e desenrolar, cada fio. Não me canso de admirar e tentar ler essa estética que por bela pede que volte e que se entranhe. O mais que me aproximo não sei o que busco, tão menos o que me engano de encontrar. Já chega a doer.

    Eu | 13-02-2005 16:08:55

    Oi! Achei um comentario antigo seu no meu "Blog Imbecil", e resolvi conferir esse aqui...confesso que me impressionou, belos textos!

    Barbinha | Email | Homepage | 23-01-2005 02:39:31

    George no concurso é covardia com os outros participantes... Tá na hora de postar outro texto, que este já ficou "velho" :)

    Gabriel | 21-01-2005 18:28:13

    oi. :) você já viu o concurso de contos da prosa e verso? hm....

    Maíra | Homepage | 16-01-2005 01:19:05

    Diga, aparentemente, parente! Muito bons teus textos. Gosto muito dessa tua facilidade de visualização que consegues dar. Belo trabalho. Tens escrito em outros lugares ou preferes manter a exclusividade no blogue mesmo? Abração.

    Solano Lucena | Homepage | 12-01-2005 19:05:06

    C.S.I Natal: por anda George?

    Aires | Email | Homepage | 09-01-2005 20:58:09

    Estou fascinada pelos seus textos... não tinha noção da profundidade que apresentam... Esse me remeteu a "Lavoura Arcaica"... muito bom...

    Mayra | Email | 21-12-2004 16:49:33

    E eu que encho palavras palavras de significado sobre mim? Espécie te causa porque sabes que é isso (ou isto, nesse caso podem ser ambos) que fazes.

    Gabriel | Homepage | 20-12-2004 15:37:39

    Gritos no alpendre... barulhinhos de repreensão. Arfante é o fôlego, tanger vigoroso. Responsabilidade, não agora. Comia... tremia... Nem constante, nem ineroxável, por favor. Nada de abusos na cabeceira. Pode até repetir, e tem sobremesa. Nada muito difícil para um promíscuo e indecente... leviano! Agora já não é com liberdade que sonha, talvez virilidade. E a Helena... essa não tem 20 anos, mas balançado. Faz ranger, distante ou perto da velharia.

    Marana | Homepage | 20-12-2004 03:03:44

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