O bom-dia saía despregado da boca fechada, selada com a saliva seca acumulada no canto por 7 horas de sono barulhado pelo ronco. Tanto a saliva quanto o ronco eram dele. O pão não. O pão deveria ser acordado, vestido, descido, andado, gastado e comprado: por mais que viesse fresquinho, por mais que crocasse, o pão precisava de muito mais verbos.
A padaria ostentava-se bem ao lado do seu prédio, junto a lavanderia self-service, restaurante fast-food, farmácia delivery, lan house e banco informatizado e conectado com o mundo, um monumento do anacronismo e uma pirraça com a evolução.
É, há coisas que são como são, só porque ainda não se deram por conta de mudá-las. O hábito de comer pó de trigo fermentado é uma delas, quente, ainda mais, besuntado na gordura do leite da vaca, nada menos brasileiro do que isso. Se Jesus tivesse ficado só pelos peixes, provavelmente o café seria acompanhado só de tapiocas. Isso eu quem falo. Ele culpava os portugueses que, a despeito dos bigodes, trouxeram os fornos de mala e cuia, além da sífilis, é claro (ria-se).
De qualquer jeito, comprava pães, tal qual escovava os dentes por mais que odiasse o gosto do dentifrício. Suas primeiras visões do mundo se davam entre a portaria do prédio e lá, enquanto separava as moedas no bolso, pensando em como o Neruda poderia se encantar tanto com leche y pan. Aguardava - e isso seu íntimo querer o denunciava, tão íntimo que só se manifestava porque ainda não passou das oito e o sol não está tão forte - o momento em que entre os cinqüenta e os vinte e cinco centavos esbarraria com ela, cabelos presos em coque, óculos de armação grossa, jornal recém-comprado embaixo do braço e um cachorro atado à cintura. Preferes as baguetes? - perguntaria. E suspirando: os brioches com parmesão parecem-me apetitosos.
George, acho que você não sofreu nenhum AVC por ter tratado de atualizar, sofreu? Precisaremos ficar insistindo sempre? E volto a dizer que gostei do texto. Um abraço
ResponderExcluirAires | Homepage | 25-02-2005 23:12:25