O último momento
Debrucei-me sobre a janela. Fiz isso por achar bonito, todos sabem que os poetas debruçam-se sobre as janelas e, hoje em dia, para se sentir alguma coisa, tem que ser poeta. Abri a persiana, juntei ao meu lado uma cadeira para quando o cansaço dessa meia noite me abatesse, e tirei a camisa, pronto para o meu sentir.
Ao alto, um céu rosa, porque o Rio de Janeiro tem um céu rosa à noite, quando o tempo não está tão limpo. À minha frente, meus vizinhos, os da outra rua, que nem sabem que eu existo, posto que, tanto para mim quanto para eles, o que existe nessa cidade são apartamentos, em que vez ou outra alguém transita por dentro deles cortando a luz (a única que tem coragem de se mostrar), quando tudo está escuro.
Em dado momento do meu momento sozinho e sensível, senti-me nu. De fora a camisa que se ajeitava junto com a poeira no canto do quarto, senti-me nu porque todos olharam para mim. Nunca me expus tanto ao mundo, posso jurar, justo quando me decidi por pensar só. Em cada janela iluminada, um rosto se afigurou, fitando-me com os olhos. Nos que as cortinas cerravam o vento, primeiro veio uma mão abrindo uma brecha, e depois o olhar invasivo. Envergonhei-me, e dei graças a Deus por ter posto a cadeira logo ao lado. As pernas bambas forçaram um apoio.
Olhei o céu, procurando por saber se ele também me encarava. O que vi foi um movimento, um tumulto, nuvens se achegando como para ver o que acontecia. O olhar foi interrompido por uma gota, no meio do meu rosto. E outra, após outra, gritando para que eu deixasse de ser besta, que sensibilidade medíocre não chama a atenção de nada, o que o povo estava ali para ver era a chuva que se mostrava nesses tempos estivais de inverno. Nuvens zombeteando.
A janela rangeu sobre meu pescoço. A estrutura velha de madeira não agüentava água, o que não era de todo o mal, servia como um aviso para que essa minha cabeça esquecida fechasse a janela quando o toró chegava. A janela cedia, anunciando-se como uma guilhotina. Cairia, independente de quem estivesse ali, metido fosse.
Mas não desisti tão fácil. Cidade prática essa, não é só a vida agitada que nos tira da espiritualidade - mesmo o clima anda às voltas para evitar essas tentativas exóticas de reflexões. Petulante, estendi mais ainda meu corpo sobre o parapeito. A chuva o lavou com vigor.
O mundo viu-me irredutível, e acho que isso fez diferença. As nuvens passaram, os olhares se fecharam, a janela se aquietou. Novamente só, depois da devassa. Nesse ínterim, fui mais de outros que de mim, e mesmo a morte mostrou as caras. Sentado aqui, no seco, percebo que os estranhos olhares não estavam ali para tratar de chuva coisa nenhuma, mas para aviltar-me, pois veja que insolência essa minha de procurar enxergar a vida, se mesmo a minha persiana verde tem algo de mais sensato que esse céu rosa do Rio de Janeiro.
Ainda bem que eu tenho a minha casinha, posso olhar o céu sem que nenhum vizinho me veja e não corro o risco de me atirar pela janela.
ResponderExcluirHelena | 04-08-2004 20:30:02
pow, vai ficar nos favortios pra eu voltar sempre!
Chico | Homepage | 30-07-2004 02:20:12
...a diferença do olhar, do sentir...lindo texto.
Dânae | Email | Homepage | 18-07-2004 22:19:32
Permita-me uma correção. Quando li seu comentário, entendi errôneamente oq vc disse. Talvez pela pressa acabei trocando "finalizando o comentário anterior" por "já havia feito um comentario anterior(mente)" e por isso escrevi que não havia recebido. Abraços - Ká
Ká | Homepage | 13-07-2004 12:46:09
Bom dia Dodico. Vim agradecer e retribuir sua visita ao SOS. Fiquei impressionada com seu blog. Muito bem montado, muito bem escrito, enfim, de muito bom gosto. Parabéns pelo seu espaço e saiba que és sempre bem vindo no SOS tb. Quanto ao seu comentário anterior não ter sido postado, creio que deva ter ocorrido algum problema com nosso blog, pois sinceramente não o recebi. Bjinhos e uma ótima semana pra vc! Ká
Ká | Email | Homepage | 13-07-2004 07:24:50
Maravilhoso este poema em prosa...! Se todos se dessem ao luxo de perscrutar o mundo ao redor, de ousar sentir o tempo como se ele fosse só nosso, de romper todas as grades que nos cerceam a liberdade - se todos fizessem assim, como vc, talvez fôssemos mais humanos, mais sensíveis e infinitamente mais apaixonados pelo Mundo. Seus vizinhos te olhavam como um ser fora de suas mediocridades - talvez vc tenha lhes dado alguma lição. Vamos esperar até a próxima chuva... Grande abraço, amigo!
Cris | Email | Homepage | 11-07-2004 12:35:29
Me sinto privilegiada por ter lido este texto assim q vc o escreveu: "Ei pera ai que eu avou li na janela."; "Desculpa a demora estava escrevendo um texto"; "Olha aí pra ver se voce gosta.." Eu adorei...principalmente os detalhes que estao super bem descritos! Beijos p vc!
Julia | Homepage | 10-07-2004 14:58:59
adorei a imagem !!! ligada com o texto, muito linda !! :)
carla | Email | 09-07-2004 23:54:52