Chegara exausto de mais um dia cansativo na sua interminável (assim parece ser) jornada cotidiana. Desde que se mudara para aquela cidade, sua vida repetia-se fatidicamente a cada espaço de tempo suficientemente longo para que tivesse uma aflitiva sensação de que não passava de uma desprezível peça do atraente e complexo sistema a que estava atrelado, executando, submisso, ordens e comandos. Sua existência arruinara-se de tal forma, que cada passo traduzia-se numa acalentadora certeza que estava mais próximo do fim. Nesse dia, previsivelmente, abriu o portão de casa e sofridamente dirigiu-se para a porta. Por um momento, ocorreu à sua cabeça que seu corpo estava mais pesado do que o de costume; ou então, ocorreu ao seu corpo que sua cabeça insistia para que ele não se movimentasse. De fato, não andava, projetava uma perna para frente, vacilava, e arrastava o restante de sua massa.
Abriu a porta com dificuldade. Na verdade, abriu-a sem vontade. Não tinha pressa alguma, o tempo não lhe corria, e os minutos imperdoáveis de sua vida insistiam em demorar dez minutos para passarem. Entrou, acendeu as luzes e parou por um momento. Por que teria que repetir exatamente todos os dias os mesmos passos? Naquele dia, seria diferente.
Foi então à sua cozinha apertada, mas terrivelmente ampla para alguém que morava sozinho e cuja fome dependia somente da sua falta de vontade de comer. Procurou algo na geladeira, e diante da frustração de não achar nada além de um pacote de leite velho, resolveu impulsivamente beber leite. Derramou pacientemente dentro do copo descartável, por várias vezes reutilizado. Levou-o à boca, esforçando-se para não sentir o cheiro do gosto azedo que o leite (?) exalava (desceu dolorosamente, em meio às tentativas de expulsão por parte do seu corpo). Apertou os olhos, franziu a testa e respirou aliviado. Já havia se livrado da necessidade de alimentar-se naquele dia.
Passeou pela casa em direção ao quarto. Como era bonito o dia ali, entre aquelas paredes brancas, inofensivas, aconchegantes; longe das ensolaradas manhãs, alegres, mas hipócritas; gentis, mas inóspitas. Chegando ao quarto, tirou sua roupa e a jogou de lado sem zelo, apanhou um calção que se segurava no trinco da porta e o vestiu. Olhou-se no espelho, e não achou a sua imagem. Estranhou um pouco, mas não se admirou; há tempos que não olhava para si mesmo. Chegou um pouco mais perto, e novamente perdeu-se numa imensidão desconhecida, onde reflexos piscavam em frente a sua real personalidade. Apalpou o rosto, ao passo que sentía um corpo estranho tocar sua face. Virou-se, agora sim assustado. Procurando não pensar mais nisso, pegou um pedaço velho de jornal, sentou-se na velha e desgastada poltrona e começou a ler.
E leu sobre casas alugadas, vendidas, compradas; leu sobre carros, animais e objetos; leu ofertas de emprego; leu uma oferta de uma nova vida. Pelo espelho, via-se um pedaço de jornal aberto sobre uma poltrona. Quem chegasse mais perto, enxergaria gritos de "Procura-se"; e mais perto ainda, enxergaria um sussurro de "Alguém para me achar".
caralho george... muito bom esse conto, irado mesmo. Vc faz um pequeno periodo de tempo virar uma eternidade. As frases curtas foram muito bem usadas. Cada palavra parece soar com eco na cabeça de quem le. Valeu!
ResponderExcluirGabriel | Email | 17-05-2004 11:29:57
Muito interessante a narrativa deste texto. A riqueza dele está numa visão interior que ao mesmo tempo é distante de si... Falando de si próprio como quem fala de outro. Gostei também.
Gustavo | Email | Homepage | 12-05-2004 02:11:42
Vc tinha razao, eu ja tinha visto esse texto antes. So espero que nao seja assim que vc se sente morando sozinho. :p Beijao
Lena | 11-05-2004 10:20:52
muito cuidado com as SENSAÇÕES. só elas mostram de fato a realidade.
emilia (filha unica) | Email | 09-05-2004 10:49:39
Ixi, o comentário anterior tinha saído com erro e ficou parecendo que eu "desconfio da sua presença"! Já consertei lá :) Adorei sua última participação no blog, aquele comentário enorme ainda vai render muitas respostas...! Beijão!
Cris (de novo) | Email | Homepage | 09-05-2004 10:25:23
Parabens Ge, seus ultimos textos, assim como todos os outros, estao maravilhosos. Ficamos cada dia mais orgulhosos de vc. Saudades...
Julhinha | 08-05-2004 13:03:51
Excelente conto !
Cris | 07-05-2004 16:41:32