terça-feira, 19 de maio de 2009

Terça-feira, Agosto 05, 2003

Desde pequeno fui de sentir aquele gosto na boca. Não posso dizer com certeza, mas nem me admiro se foi ainda no berço quando o metal enlameou minha língua pela primeira vez.

Cresci toda a minha mocidade com aquele sabor férreo e constante. Vez por outra, podia ser na hora do almoço ou mesmo no pré-sono, brindava-me com aquela visita. E, com ela, insinuavam-se pelo meu corpo imagens, sons - gritos ou apitos, fininhos no ser -, cheiros e até uma dor, pequena, quase não dor, mas jurava que sentia. Uma sinestesia maravilhosa de encanto, loucura, transcendência e dinâmica.

Encarava-o já normalmente. Éramos já um, o gosto e eu. Lado-a-lado, acostumei-me com sua presença, e até procurei tirar-lhe algo de agradável, afinal de contas, ninguém nesse mundo conhecia mais que eu aquele cinza saboroso.

Foi assim que passei a associá-lo com o meu estado de espírito. Desse dia em diante, o quarto dia do oitavo mês, descobri que só o metal me bastava, e que sem ele, nada saberia sobre mim mesmo.

***

Foi uma espera intensa. Dia após dia, a inquietude era certa. Até que chegou uma tal manhã de meio-dia. Eu ouvia-o já em meus sonhos, um zumbido, um barulho, rápido e crescente. Saí de casa afoito e entreguei-me ao primeiro vento que passou.

Corri, voei, e joguei-me. Ela passou rápido, mas eu sentia a aproximação a cada milésimo de segundo. Não vi meu salvador, nem percebi a cor dos seus óculos escuros. O calibre 38 chegou redondo, mas pontudo.

Estava de costas. É uma pena. Não pude nem vê-la.

E aquele gosto metálico. O tal gosto metálico, exatamente como eu havia imaginado.

Nenhum comentário:

Postar um comentário