quarta-feira, 27 de maio de 2009

Terça-feira, Outubro 04, 2005

Aquieta-se a imensidão. De fora todo o resto, naquele soluço que é engasgo e que pausa, envergonhadamente, a conversa, em uma desculpa engolfada de acinte aos bons costumes; naquele tropeço bronco que faz voltar o rosto a admoestar o chão traiçoeiro; na espera ansiosa pela luz que, mais do que iluminar, confere às coisas o seu jeito de coisas; em toda essa suspensão de vitalidade, agida por algum titeriteiro em horário de lanche, aí está a imensidão mansa, calminha como uma criança sentada em um tamborete às cinco da tarde no aguardo da mãe que vai já, só acabar o café.

A vida, alheia à simples vontade, acaba, invariavelmente, porque invariáveis são as formas com que tudo se acaba, por se erigir em um balaio lotado de agruras que têm por fim o eterno sapecar em nossos rostos que o azedume do limão, aquele que se coloca em toda comida, tanto tem de ruim para a língua e para o estômago, quanto tem de mal para a pele, quando exposta ao sol. São os ditos e tantos dissabores, de bem que a mim cai melhor ter o sabor, esse sim, por dissabor, eis que certo é que mais se apanha do que se recebe beijos nesta vida.

E tão, então, que tanta atribulação um dia arpeja. Os Exus, já acostumados a agoniar o juízo dos outros, cansam do aperreio e resolvem descansar, dizem que nos tempos em que a água de coco não está lá essas coisas. E aí, é igual quando a arrebentação passa e o olho ainda salgado lacrimeja aquele mar enorme e bem horizontalzinho, quando o avião sobe e, turbulento, arruma-se acima das nuvens, como que a roçar um tapete de algodão fofo com o pé que sai aliviado de um expediente inteiro de trabalho, igual a esses e a outros enfins. Nisso tudo, percebe-se que atabalhoação era só percurso, que o azedo era tira-gosto, e que tudo quanto é, a despeito do que pretenda demonstrar, é plácido, sereno, lúcido e lúdico, como se estivesse em uma cara colônia de férias todo o marasmo do mundo.

Um comentário:

  1. Isso, sem o temeperamento explosivo, rs. Enquanto ao texto é isso mesmo, a vida não é um filme, são fotografias que, quando vistas tempos depois nos deixam com essa sensação do mundo, plácido, sereno, lúcido e lúdico, como uma criança com tambor, batucando o marasmo do mundo. Abraço

    Rene | 14-10-2005 16:41:57

    Adorei os textos! Fiquei muito orgulhosa... Deus o conserve assim! Sem o temperamento explosivo!

    Edna Lucena | 10-10-2005 18:07:08

    Adorei os textos! Fiquei muito orgulhosa... Deus o conserve assim! Sem o temperamento explosivo!

    Edna Lucena | 10-10-2005 18:07:07

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