Escorro cada vez mais por entre os meus próprios dedos.
Antes, eu julgava inocentemente que o escrever-me prenderia em mim o que eu mesmo não faço por não ter coragem ou viço para tanto.
Hoje eu desespero.
Não tenho sequer uma caneta, um pedaço de papel, qualquer nesga de suporte que oriente o que já é insustentável;
cansei de procurar nos quartos, nas casas em que estive, nos livros que eu li quando ainda não imaginava que não me teria mais por mim.
Os outros, esses já não mais encaro -
Tenho medo só de conceber que alguém saiba o que não tenho a menor vontade de admitir.
De tudo em pouco que me sobra, sorvo somente à mostra;
Guardo todo o resto para o depois do fim.
terça-feira, 2 de junho de 2009
Terça-feira, Maio 19, 2009
Estou migrando aos poucos para o blogspot. Abandonarei a blogger.com.br, que parou no tempo e nem uma ferramenta de exportação me oferece.
O endereço será o http://georgelucena.blogspot.com/
Começa aqui o fim deste que me acompanhou por 06 anos.
O endereço será o http://georgelucena.blogspot.com/
Começa aqui o fim deste que me acompanhou por 06 anos.
Quinta-feira, Janeiro 15, 2009
Faz do acordar a resistência diária não contra o que não quer ser, mas contra as próprias constatações de que já está sendo. Daí que se nega a dormir. Evita em cada música, em cada cigarro, em cada programa enfadonho da televisão obstinada a inevitável rendição à incapacidade de mudar.
Quando lhe perguntam o que é, responde, ridiculamente, o que será.
A insônia não é dos que naturalmente sofrem, mas dos que escolhem sofrer por não deixar de se entregar.
Um dia, quem sabe, deixará de querer ser.
Quando lhe perguntam o que é, responde, ridiculamente, o que será.
A insônia não é dos que naturalmente sofrem, mas dos que escolhem sofrer por não deixar de se entregar.
Um dia, quem sabe, deixará de querer ser.
Sexta-feira, Outubro 10, 2008
Era só gritarem o almoço que eles apareciam saracoteando cozinha adentro. Vinham da terra onde quer que a encontrassem, na rua, no quintal, no jardim já destruído pelo chafurdo cotidiano das manhãs de janeiro. Chegavam sonsos aqueles olhinhos, trazendo consigo a beleza que não admite reprimendas e que tudo se permite.
Tanta meninice me emocionava. Na verdade, nunca fui tão bobo em minha vida, ora invocado pelo abraço que a danada rejeitava só para me passar raiva, ora encantado pela bagunça que aqueles olhos, nuinhos, faziam no peito da gente.
Um dia parece que saíram para um passeio à tarde que demorou a mais porque o dia inventou de escurecer mais cedo.
Quando janeiro acabou, eles já não eram mais meus.
Até hoje os espero, remordido. Embriagado com a saudade e com a lembrança do tempo bom, nem percebi quando aqueles olhos manhosos levaram a minha menina buliçosa que nunca mais voltou.
Tanta meninice me emocionava. Na verdade, nunca fui tão bobo em minha vida, ora invocado pelo abraço que a danada rejeitava só para me passar raiva, ora encantado pela bagunça que aqueles olhos, nuinhos, faziam no peito da gente.
Um dia parece que saíram para um passeio à tarde que demorou a mais porque o dia inventou de escurecer mais cedo.
Quando janeiro acabou, eles já não eram mais meus.
Até hoje os espero, remordido. Embriagado com a saudade e com a lembrança do tempo bom, nem percebi quando aqueles olhos manhosos levaram a minha menina buliçosa que nunca mais voltou.
Sexta-feira, Outubro 03, 2008
Inda ontem eu chorei, lembra?
Rabiscava em linhas tenras o amor que iria vir.
Ali, eu cismava de tão sentir o que então era encanto,
E rezava, que é para tudo durar só mais um pouco.
Hoje eu choro a saudade perdida.
Perdida das horas de conversa escondida embaixo do lençol para o sono não ver,
Perdida do mundo que você me soletrou pacientemente para eu não esquecer,
Perdida do menino que cresceu e por achar que não cabia mais em si, também se perdeu.
Fui só eu que escolhi.
Haverá como se tentar de novo?
Temos tanto por fazer, a casa para arrumar, a pia para consertar, tanto corpo para ceder.
Inda ontem eu sonhava, disso eu lembro.
E do mais? Será que já esqueci?
Rabiscava em linhas tenras o amor que iria vir.
Ali, eu cismava de tão sentir o que então era encanto,
E rezava, que é para tudo durar só mais um pouco.
Hoje eu choro a saudade perdida.
Perdida das horas de conversa escondida embaixo do lençol para o sono não ver,
Perdida do mundo que você me soletrou pacientemente para eu não esquecer,
Perdida do menino que cresceu e por achar que não cabia mais em si, também se perdeu.
Fui só eu que escolhi.
Haverá como se tentar de novo?
Temos tanto por fazer, a casa para arrumar, a pia para consertar, tanto corpo para ceder.
Inda ontem eu sonhava, disso eu lembro.
E do mais? Será que já esqueci?
Sábado, Abril 19, 2008
A vida vai voltar a ser o que era. Eu me esforço para acreditar nisso, nesse pensamento que, de futuro, transformou-se na minha única esperança de felicidade.
Só quero a mim de volta. Quero voltar ao tempo em que sonhar com o passado não me emocionava, de imerso que estava em descobrir, ou em me enganar, que ainda havia tanto pela frente. Quero de volta as minhas crenças, as minhas ilusões, a minha sensibilidade lúdica que se esvaiu tão rapidamente, sem permitir que eu, ao menos, contemplasse o mar com olhos despreocupados pela última vez.
(...)
Hoje a tarde foi um pouco mais longa. Tive certeza, em vários momentos, que não agüentaria tanta espera. Foi a primeira vez em que pensei em desistir.
Só quero a mim de volta. Quero voltar ao tempo em que sonhar com o passado não me emocionava, de imerso que estava em descobrir, ou em me enganar, que ainda havia tanto pela frente. Quero de volta as minhas crenças, as minhas ilusões, a minha sensibilidade lúdica que se esvaiu tão rapidamente, sem permitir que eu, ao menos, contemplasse o mar com olhos despreocupados pela última vez.
(...)
Hoje a tarde foi um pouco mais longa. Tive certeza, em vários momentos, que não agüentaria tanta espera. Foi a primeira vez em que pensei em desistir.
Sexta-feira, Novembro 30, 2007
Deixo para trás a última saudade não sentida. Todas as outras levo comigo.
Trago o peso da culpa e das coisas que carregam os carregados à morte. Sofro com a lágrima que vai derramar quando eu sumir com o meu rosto, e me arrependo por estorvar a última noite que poderia ter comigo e não terá.
(ao menos vou certo de que nunca me esquecerei no frio que o tanto sempre me causou)
De lá remeterei as minhas lembranças, que andam partindo a uma velocidade que não consigo mais acompanhar. Mandaria despachar até a goiabeira, se ela não tivesse caído junto com todo o resto quando o asfalto chegou.
Amanhã, finalmente gozarei a vida que acabou ao começar.
Trago o peso da culpa e das coisas que carregam os carregados à morte. Sofro com a lágrima que vai derramar quando eu sumir com o meu rosto, e me arrependo por estorvar a última noite que poderia ter comigo e não terá.
(ao menos vou certo de que nunca me esquecerei no frio que o tanto sempre me causou)
De lá remeterei as minhas lembranças, que andam partindo a uma velocidade que não consigo mais acompanhar. Mandaria despachar até a goiabeira, se ela não tivesse caído junto com todo o resto quando o asfalto chegou.
Amanhã, finalmente gozarei a vida que acabou ao começar.
Sexta-feira, Julho 06, 2007
A melodia começara baixinho. Meus pés ensapatados, desacostumados ao movimento, ensaiavam um sapateio descompassado, mesmo que eu não me desse por isso.
E sem que eu me desse por isso, o som contagiava-me em seu ritmo por vezes delirante, por vezes lôbrego, mas sempre presente, como uma sinfonia que, tomada de embriaguez, estendia-se até nunca, atrapalhando a ópera apoteótica que eu, inocente, insistia em aguardar.
Na terceira ária não cantada, dancei.
A cidade, surpreendida, abriu espaço, fazendo-se de palco. Logo eu, que nunca dei ouvidos ao que se cantava por ai; eu me embalava, à espera de aplausos, dançando - finalmente - a música do mundo.
E sem que eu me desse por isso, o som contagiava-me em seu ritmo por vezes delirante, por vezes lôbrego, mas sempre presente, como uma sinfonia que, tomada de embriaguez, estendia-se até nunca, atrapalhando a ópera apoteótica que eu, inocente, insistia em aguardar.
Na terceira ária não cantada, dancei.
A cidade, surpreendida, abriu espaço, fazendo-se de palco. Logo eu, que nunca dei ouvidos ao que se cantava por ai; eu me embalava, à espera de aplausos, dançando - finalmente - a música do mundo.
Terça-feira, Maio 08, 2007
Esta noite, quando eu já dormitava, ele me assaltou.
Chegara madrugada alta:
"Calça os teus sapatos que hoje é dia de festa!
Quero a goma mais lustrosa no cabelo e
O perfume mais doce no tecido.
Quero a pura alegria de janeiro"
Sonolento, eu chorava, surpreendido.
"Não falei que voltaria quando me tivesse por sumido?"
Entreguei-lhe tudo o que tinha,
Com exceção dos sapatos, da goma e do perfume.
A cada carta, a cada fotografia, a cada lembrança dobrada, eu lia em seus olhos o regozijo soberbo e silencioso de quem se descobria importante - dir-se-ia indispensável.
"Tenho cá comigo teus uniformes,
Tenho teus livros e teus amores.
Tenho o tempo frouxo e o brincar bobo que não marca hora pra acabar"
E eu me via mais nele que em mim,
Desesperado por não achar a alegria,
Perdida que estava no meio do mofo e da poeira que o tanto mexer nas gavetas levantou.
Partiu levando-me o muito que não deixou.
Tentei agarrar-lhe as pernas, mas se esquivara com o primeiro toque para o recreio.
Restei sem minha brisa (e sem a sesta preguiçosa), sem meus cachorros, sem minha acácia velha que descascava a cada subida...
De que adiantava tanto alvoroço?
Da festa maior eu já não mais posso participar.
Chegara madrugada alta:
"Calça os teus sapatos que hoje é dia de festa!
Quero a goma mais lustrosa no cabelo e
O perfume mais doce no tecido.
Quero a pura alegria de janeiro"
Sonolento, eu chorava, surpreendido.
"Não falei que voltaria quando me tivesse por sumido?"
Entreguei-lhe tudo o que tinha,
Com exceção dos sapatos, da goma e do perfume.
A cada carta, a cada fotografia, a cada lembrança dobrada, eu lia em seus olhos o regozijo soberbo e silencioso de quem se descobria importante - dir-se-ia indispensável.
"Tenho cá comigo teus uniformes,
Tenho teus livros e teus amores.
Tenho o tempo frouxo e o brincar bobo que não marca hora pra acabar"
E eu me via mais nele que em mim,
Desesperado por não achar a alegria,
Perdida que estava no meio do mofo e da poeira que o tanto mexer nas gavetas levantou.
Partiu levando-me o muito que não deixou.
Tentei agarrar-lhe as pernas, mas se esquivara com o primeiro toque para o recreio.
Restei sem minha brisa (e sem a sesta preguiçosa), sem meus cachorros, sem minha acácia velha que descascava a cada subida...
De que adiantava tanto alvoroço?
Da festa maior eu já não mais posso participar.
Sábado, Março 24, 2007
Saibam que a ânsia que sinto ao ver os sorrisos estampados nas propagandas é a de quem espera a vida inteira pela fotografia mais bela. Sei que tudo são porta-retratos de uma existência estática, capturada por imagens instantâneas e lá aprisionada por todo o tempo que durar a tinta.
(Não sei ainda, por outro lado, a quem serve o prazer não compartilhado: a embriaguez solitária é tragédia, a punheta é doença, o cigarro é o vício e o ócio, a degeneração. Não sei a quem serve o tempo apressado, o momento engolido, o futuro empacotado em carta registrada para não se perder no caminho. Não sei, enfim, o que comprarei com o dinheiro que terei aos quarenta, mas me esforço, todo dia, para entender que nisso residirá minha felicidade)
Os velhos, por si, sorriem com as caras mais carrancudas do mundo, porque o riso há tempos perdeu-se nos primeiros quadros. Eles já perceberam para quem se vive. Eu, por mim, tento, cada vez mais, não me convencer.
(Não sei ainda, por outro lado, a quem serve o prazer não compartilhado: a embriaguez solitária é tragédia, a punheta é doença, o cigarro é o vício e o ócio, a degeneração. Não sei a quem serve o tempo apressado, o momento engolido, o futuro empacotado em carta registrada para não se perder no caminho. Não sei, enfim, o que comprarei com o dinheiro que terei aos quarenta, mas me esforço, todo dia, para entender que nisso residirá minha felicidade)
Os velhos, por si, sorriem com as caras mais carrancudas do mundo, porque o riso há tempos perdeu-se nos primeiros quadros. Eles já perceberam para quem se vive. Eu, por mim, tento, cada vez mais, não me convencer.
Quinta-feira, Março 01, 2007
Quanto da espera é estupidez;
Quanto me embriaguei na altivez de tanto encanto,
Aguardando acalantos nunca embalados,
Tragando pinturas em quadros, desenhadas para um outro, que não eu.
Quanto da palavra foi desperdiçada;
Quanto me cativei do sorriso sonso, de tão manhoso,
Sufocando o descontentamento mudo,
Ludibriando em ilusões vermelhas, aspergidas displiscentemente, certo em mim, que não creio em Deus.
Quanto da perda foi insistência;
Quanto do desgosto foi só meu capricho,
Alteando fogueteios pálidos,
Trepidando flâmulas fendidas, esgarças: homenagem caduca a uma inquietação mais do que moça.
Ora me perco nas horas,
E quanto das horas perdi em revelar-me,
Como quem espera, mais do que só, o remorso de tanta obstinação?
Quanto me embriaguei na altivez de tanto encanto,
Aguardando acalantos nunca embalados,
Tragando pinturas em quadros, desenhadas para um outro, que não eu.
Quanto da palavra foi desperdiçada;
Quanto me cativei do sorriso sonso, de tão manhoso,
Sufocando o descontentamento mudo,
Ludibriando em ilusões vermelhas, aspergidas displiscentemente, certo em mim, que não creio em Deus.
Quanto da perda foi insistência;
Quanto do desgosto foi só meu capricho,
Alteando fogueteios pálidos,
Trepidando flâmulas fendidas, esgarças: homenagem caduca a uma inquietação mais do que moça.
Ora me perco nas horas,
E quanto das horas perdi em revelar-me,
Como quem espera, mais do que só, o remorso de tanta obstinação?
Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007
Bem que - sim! - podias ter falado menos,
E usado a magia pra acalmar o sereno que me faz gripar.
Hoje eu que deito pra esperar o mundo.
Hoje eu que falo tanto absurdo, pra te conquistar.
Sonho o sonho bobo com tuas mãos ao peito,
Quero o envergonhar-me, ao acordar sem jeito,
E ouvir aquela voz, quando se esgueira, dizer:
"Vem fazer meu carnaval"
Mas quanto da folia foi só desconcerto, logo cedo.

E usado a magia pra acalmar o sereno que me faz gripar.
Hoje eu que deito pra esperar o mundo.
Hoje eu que falo tanto absurdo, pra te conquistar.
Sonho o sonho bobo com tuas mãos ao peito,
Quero o envergonhar-me, ao acordar sem jeito,
E ouvir aquela voz, quando se esgueira, dizer:
"Vem fazer meu carnaval"
Mas quanto da folia foi só desconcerto, logo cedo.

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007
Aquele sim tinha nome. Nome, sobrenome e uma necessidade sufocante de fugir de casa, necessidade que crescia no tanto que uma modorra braba, daquelas de deixar o cabelo cheirando a mofo, atacava-lhe os pés.
Passava pouco das três. Augusto Mancini saíra de casa do jeito mesmo que estava, gafo e todo acabrunhado, dizendo que ia fumar cigarro, embora se tenha por certo que o que queria mesmo era auto-impingir-se um feitio noir, mesmo às três da tarde e mesmo numa cidade tão cinza e sem contraste quanto São Paulo.
Caminhara pouco, não mais do que vinte metros, quando constatou que vivenciava um daqueles momentos da vida a que se pode realmente chamar de momento. Imediatamente, Augusto tratou de tentar resgatar todas as suas reflexões pensadas ou ouvidas que, de alguma forma, versavam sobre a plasticidade da realidade, a insustentabilidade da existência e a transitoriedade do sensível.
Tentou, mas o tempo fora insuficiente, como precisamente ocorre com todo o mais.
A lotação, que passava à rua e cenariava para o seu filosofar vespertino, sumiu sem fazer qualquer alarde, do mesmo jeito que fazia quando, já cheia, mudava de rota para evitar o caos urbano das seis. A mesma coisa se deu com uma senhorinha, simpática até, que por aquelas bandas passeava (isso é tudo o que dela se soube).
Já Augusto Mancini, aquele sim tinha nome e sobrenome que não permitiriam o seu sumiço. Augusto havia caminhado não mais do que vinte metros quando a rua abriu-se à sua frente, de certa forma convidativa, insinuando que, ao fundo, havia mais segredos e mais mistérios do que o que aquela concretada toda permitia antever. Um convite para poucos.
No instante em que penetrava os intestinos da cidade barulhenta, inevitavelmente projetava a sua memória para idos tempos onde se podia, com solidez, brincar despreocupado à margem do rio, lembrança caduca já pelo rio, que dirá de suas várzeas firmes.
E depois?
Depois mais nada. Mesmo em São Paulo, o nada faz barulho de silêncio.
Passava pouco das três. Augusto Mancini saíra de casa do jeito mesmo que estava, gafo e todo acabrunhado, dizendo que ia fumar cigarro, embora se tenha por certo que o que queria mesmo era auto-impingir-se um feitio noir, mesmo às três da tarde e mesmo numa cidade tão cinza e sem contraste quanto São Paulo.
Caminhara pouco, não mais do que vinte metros, quando constatou que vivenciava um daqueles momentos da vida a que se pode realmente chamar de momento. Imediatamente, Augusto tratou de tentar resgatar todas as suas reflexões pensadas ou ouvidas que, de alguma forma, versavam sobre a plasticidade da realidade, a insustentabilidade da existência e a transitoriedade do sensível.
Tentou, mas o tempo fora insuficiente, como precisamente ocorre com todo o mais.
A lotação, que passava à rua e cenariava para o seu filosofar vespertino, sumiu sem fazer qualquer alarde, do mesmo jeito que fazia quando, já cheia, mudava de rota para evitar o caos urbano das seis. A mesma coisa se deu com uma senhorinha, simpática até, que por aquelas bandas passeava (isso é tudo o que dela se soube).
Já Augusto Mancini, aquele sim tinha nome e sobrenome que não permitiriam o seu sumiço. Augusto havia caminhado não mais do que vinte metros quando a rua abriu-se à sua frente, de certa forma convidativa, insinuando que, ao fundo, havia mais segredos e mais mistérios do que o que aquela concretada toda permitia antever. Um convite para poucos.
No instante em que penetrava os intestinos da cidade barulhenta, inevitavelmente projetava a sua memória para idos tempos onde se podia, com solidez, brincar despreocupado à margem do rio, lembrança caduca já pelo rio, que dirá de suas várzeas firmes.
E depois?
Depois mais nada. Mesmo em São Paulo, o nada faz barulho de silêncio.
Quinta-feira, Janeiro 11, 2007
Certa noite, uma prostituta do Lido chora; chora de jeito que nem é tanto choro em vão: canta o pranto daquela puta que, de seu, só o choro pode ser canção.
A puta sonha; sonha de jeito que sua mão frouxa leva o cigarro ao chão: tanto do seu sonho corre alto, mas seu cigarro, queimando leso, diz-lhe que não!
Certa noite, essa prostituta do Lido, horrorizada, deu para gritar, e só gritar.
Gritava, mas era uma coisa que ninguém acodia, que ninguém se ajuntava, que ninguém virava a cara nem muito menos comentava o seu horror. Vai ver achava-se que, por esses mercados, mesmo a compaixão tem de ser cobrada.
Uma criança até brincava na praça, e o cigarro da puta, naquela noite, consumia, indolentemente, mais um trago de ilusão.

A puta sonha; sonha de jeito que sua mão frouxa leva o cigarro ao chão: tanto do seu sonho corre alto, mas seu cigarro, queimando leso, diz-lhe que não!
Certa noite, essa prostituta do Lido, horrorizada, deu para gritar, e só gritar.
Gritava, mas era uma coisa que ninguém acodia, que ninguém se ajuntava, que ninguém virava a cara nem muito menos comentava o seu horror. Vai ver achava-se que, por esses mercados, mesmo a compaixão tem de ser cobrada.
Uma criança até brincava na praça, e o cigarro da puta, naquela noite, consumia, indolentemente, mais um trago de ilusão.

Segunda-feira, Dezembro 25, 2006
Na noite de ontem, o céu esbranquiçou,
E as igrejas badalaram os sinos das duas às quatro da manhã.
Um menino, na rua de cima, correu pelado, antes que o céu se apagasse, mesmo com toda a friagem e com todo o sereno.
Na noite de ontem, os cachorros miaram,
E as moças, que eram moças, todas perfumadas saíram atrás de homem.
Diz que um carro, que corria apressado, parou, como quem olhava para o mar.
O dono de uma bodega entoou uma oração,
E a música rancheira descambou no trance pesado.
A mulher do vizinho, senhora séria, gozou pela primeira vez - a vizinhança inteira ouviu seu orgasmo menárquico.
(As vacas até resolveriam fugir por aí,
Mas é que, mesmo na noite de ontem, os capins eram mais capins do que nunca)
Disso tudo se sabe porque o povo contou.
Já eu,
eu dormia, ao seu resbunar,
Num sonho bem sonho,
E numa noite bem ontem dali.
E as igrejas badalaram os sinos das duas às quatro da manhã.
Um menino, na rua de cima, correu pelado, antes que o céu se apagasse, mesmo com toda a friagem e com todo o sereno.
Na noite de ontem, os cachorros miaram,
E as moças, que eram moças, todas perfumadas saíram atrás de homem.
Diz que um carro, que corria apressado, parou, como quem olhava para o mar.
O dono de uma bodega entoou uma oração,
E a música rancheira descambou no trance pesado.
A mulher do vizinho, senhora séria, gozou pela primeira vez - a vizinhança inteira ouviu seu orgasmo menárquico.
(As vacas até resolveriam fugir por aí,
Mas é que, mesmo na noite de ontem, os capins eram mais capins do que nunca)
Disso tudo se sabe porque o povo contou.
Já eu,
eu dormia, ao seu resbunar,
Num sonho bem sonho,
E numa noite bem ontem dali.
Segunda-feira, Novembro 13, 2006
Ô, menina danada do vestido sujo! Ora retorno...
Cheguei pelos traçados desguedelhados
Que desenhaste com giz e que o tempo mal borrou.
Cheguei pela amarelinha de céu que nunca chega:
Tantas pedras colocaste em teu caminho!
Vim por teu abraço enfulijado,
E pelas turbamultas de teus laços em fita.
Vim por teu sorriso desmaiado,
Pelo teu viço morno, teu contentamento frouxo, tua tristeza em mar.
Encontrei-te quietinha, minha menina já velha.
Lembras de mim?
Eu sou aquele que te deixou, no dia em que tentaste me abraçar.
Cheguei pelos traçados desguedelhados
Que desenhaste com giz e que o tempo mal borrou.
Cheguei pela amarelinha de céu que nunca chega:
Tantas pedras colocaste em teu caminho!
Vim por teu abraço enfulijado,
E pelas turbamultas de teus laços em fita.
Vim por teu sorriso desmaiado,
Pelo teu viço morno, teu contentamento frouxo, tua tristeza em mar.
Encontrei-te quietinha, minha menina já velha.
Lembras de mim?
Eu sou aquele que te deixou, no dia em que tentaste me abraçar.
Segunda-feira, Novembro 13, 2006
Chega de fusões confusas!
Eis aqui meu alarido enfastiado:
Minha toalha de juta largada, suja, escarnecida, jogada junto ao ofego rouco de tanto gritar por atenção.
Agora torço por um esperar por vir e por aquele enjôo bom que enrota o lençol numa noite de sonho sem sono.
Quero dos mais limpos o canto
e quero a seda quente do calor de um só corpo.
Quero uma saudade sem tesão.
Quero querer um castelo, para escrever sobre ele e falar sobre ele e beber sobre ele e dormir sobre ele, de tão cansado! (mas não do castelo - é que, no castelo, levar-me-ão numa garupa para tomar dos sorvetes e subir nas árvores, só para depois jantar suado com cheiro de rua)
Quando vier o enjôo, eu vou estar sentado na poltrona com as pernas a balançar, por não querer pisar mais nesse chão.
Vou estar de banho tomado, em ponto, o cabelo arrumado, a roupa combinando e o olhar ronceiro com a mão esticada, porque não vou mais querer me perder por aí.
Eis aqui meu alarido enfastiado:
Minha toalha de juta largada, suja, escarnecida, jogada junto ao ofego rouco de tanto gritar por atenção.
Agora torço por um esperar por vir e por aquele enjôo bom que enrota o lençol numa noite de sonho sem sono.
Quero dos mais limpos o canto
e quero a seda quente do calor de um só corpo.
Quero uma saudade sem tesão.
Quero querer um castelo, para escrever sobre ele e falar sobre ele e beber sobre ele e dormir sobre ele, de tão cansado! (mas não do castelo - é que, no castelo, levar-me-ão numa garupa para tomar dos sorvetes e subir nas árvores, só para depois jantar suado com cheiro de rua)
Quando vier o enjôo, eu vou estar sentado na poltrona com as pernas a balançar, por não querer pisar mais nesse chão.
Vou estar de banho tomado, em ponto, o cabelo arrumado, a roupa combinando e o olhar ronceiro com a mão esticada, porque não vou mais querer me perder por aí.
Quarta-feira, Setembro 27, 2006
Volta!
E me conta o que fizeste,
Que aviões te levaram para onde,
Que ilusões te planaram, enquanto longe...
Enquanto longe, a panela requentava
O jantar ex-almoço no fogão.
Volta!
Que a cama é solteira, mas não quer ser sozinha.
Pra falar a verdade, quando voltares te direi:
- Na falta de ti, ocupei-me de mim.
E de mim já estou farto!
Enchi também da roupa que não sai,
Do sono que não trai,
Do copo que não cai,
E do grito que só diz ai!
Ao invés dos gemidos arfados ao pé-do-ouvido...
Volta, mas chega logo.
Já passam das três e,
sabe,
é que te quero ao meu lado, quando o pesadelo acabar.
E me conta o que fizeste,
Que aviões te levaram para onde,
Que ilusões te planaram, enquanto longe...
Enquanto longe, a panela requentava
O jantar ex-almoço no fogão.
Volta!
Que a cama é solteira, mas não quer ser sozinha.
Pra falar a verdade, quando voltares te direi:
- Na falta de ti, ocupei-me de mim.
E de mim já estou farto!
Enchi também da roupa que não sai,
Do sono que não trai,
Do copo que não cai,
E do grito que só diz ai!
Ao invés dos gemidos arfados ao pé-do-ouvido...
Volta, mas chega logo.
Já passam das três e,
sabe,
é que te quero ao meu lado, quando o pesadelo acabar.
Quinta-feira, Setembro 14, 2006
Quietinho,
Embala a rede num frio,
Num vento frio.
Antes, o frio era também chuva
Com o cheiro mais verde do mundo.
Hoje, o frio é só o só
É só a rede, só
É só o vento, só...
...só, o cheiro verde secou
Antes do fogo chegar.
Embala a rede num frio,
Num vento frio.
Antes, o frio era também chuva
Com o cheiro mais verde do mundo.
Hoje, o frio é só o só
É só a rede, só
É só o vento, só...
...só, o cheiro verde secou
Antes do fogo chegar.
Terça-feira, Julho 18, 2006
Nada o interessa.
Que é do Rio e suas histórias tão fluidas quanto água de chuva correndo nas vielas pavimentadas do Centro, ou da Ipanema adolescente com cabelo vermelho e tão casta e tão beata quanto as Carmelitas de Santa Teresa; que é dos livros tão pesados de tempo e de classicismos, tanto que expatriam o exame crítico para ceder espaço ao deleite e às horas que desistem de passar para tricotar-se desavergonhadamente; que é do relógio a torturá-lo com sua inexorável vontade de despedir; que é dos companheiros que se juntam para escapar, no riso, da insuportável existência também a eles desinteressante; e o que é do seu amor, brilhante e tão distante que só se faz perceber nas cartas, do mesmo modo como se acompanha a explosão de uma supernova que de fato já se apagou.
Está em si, mais perdido e farto do que nunca. Nem sofrer pode dizer que sofre, porque, hoje em dia, o sofrimento no inverno é cafona. Vive, enviesado, a contemplar o chafurdo da madrugada no dia e da tarde na noite. Antes se orgulhava de esperar. Agora percebe, melancolicamente, que seu orgulho afundou-se há um certo tempo, em uma daquelas madrugadas, e que o que se espera, em verdade, já é.
Que é do Rio e suas histórias tão fluidas quanto água de chuva correndo nas vielas pavimentadas do Centro, ou da Ipanema adolescente com cabelo vermelho e tão casta e tão beata quanto as Carmelitas de Santa Teresa; que é dos livros tão pesados de tempo e de classicismos, tanto que expatriam o exame crítico para ceder espaço ao deleite e às horas que desistem de passar para tricotar-se desavergonhadamente; que é do relógio a torturá-lo com sua inexorável vontade de despedir; que é dos companheiros que se juntam para escapar, no riso, da insuportável existência também a eles desinteressante; e o que é do seu amor, brilhante e tão distante que só se faz perceber nas cartas, do mesmo modo como se acompanha a explosão de uma supernova que de fato já se apagou.
Está em si, mais perdido e farto do que nunca. Nem sofrer pode dizer que sofre, porque, hoje em dia, o sofrimento no inverno é cafona. Vive, enviesado, a contemplar o chafurdo da madrugada no dia e da tarde na noite. Antes se orgulhava de esperar. Agora percebe, melancolicamente, que seu orgulho afundou-se há um certo tempo, em uma daquelas madrugadas, e que o que se espera, em verdade, já é.
Quinta-feira, Julho 13, 2006
Inquieto, o peito sonha
O sono nu.
Noite tarda e o corpo paira:
As horas da praça são horas-solidão.
Passa ao longe, orquestrando o meu desconserto.
Cada pedra da praça sente comigo,
Treme comigo,
E pisa comigo em seus passos, maestro!
Os passos - inda firmes lembrarão.
O lixeiro varre cantos, no centro da praça,
como se adiantasse alguma coisa.
Enquanto for noite, os cantos continuarão sujos
E de manhã os pombos vêm dar à praça o ar de praça.
Eu varro olhares, pelos meios e pelos cantos.
Espero na praça como quem tem tempo a perder.
Só o tempo não fugiu de mim
Quanto tudo esfriou.
No frio, o que mais faz falta
É o futuro em forma de papel.
Os desenhos já eram as praças
Mas ainda não havia ninguém sentado naqueles bancos.
O sono nu.
Noite tarda e o corpo paira:
As horas da praça são horas-solidão.
Passa ao longe, orquestrando o meu desconserto.
Cada pedra da praça sente comigo,
Treme comigo,
E pisa comigo em seus passos, maestro!
Os passos - inda firmes lembrarão.
O lixeiro varre cantos, no centro da praça,
como se adiantasse alguma coisa.
Enquanto for noite, os cantos continuarão sujos
E de manhã os pombos vêm dar à praça o ar de praça.
Eu varro olhares, pelos meios e pelos cantos.
Espero na praça como quem tem tempo a perder.
Só o tempo não fugiu de mim
Quanto tudo esfriou.
No frio, o que mais faz falta
É o futuro em forma de papel.
Os desenhos já eram as praças
Mas ainda não havia ninguém sentado naqueles bancos.
Domingo, Junho 04, 2006
Diálogo ouvido por uma cama vitoriana em seus anos de derrota
- Despe-te!
- Ora, como poderia? Estás ao meu lado e, pelo adiantado da hora, acabaríamos por cair no sono...
- Hoje o sono nos terá despidos, então.
- ...
- Ou, por um acaso, sentes medo?
- Medo de forma alguma! Contudo admitamos que a situação é um tanto constrangedora.
- Queres dizer que te ponho envergonhado?
- Não me entendas mal, por favor. Temo apenas pela tua honra, e só a tua, eis que sou homem e tu a mim te apresentas como uma jovem e formosa moça, mais cheia de viço e de vida do que eu poderia suportar.
- Não sejas tão tolo! Deste lado da cama parece, isto sim, que supões que eu não seria capaz de me controlar. Saibas tu e tuas tantas roupas que tenho pleno domínio de minhas emoções.
- Infelizmente sou incapaz de dizer o mesmo de mim...
- Despe-te e te deitas então, leão impulsivo e descontrolado, que te adornarei com rédeas tão logo a tua última peça caia ao chão do quarto.
(e ao acordarem...)
- O que, por Deus, é isto? Resolveste tomar banho aqui no quarto e, como se já não bastasse, sobre a cama?
- Pela graça, não fala mais! Estou por demais embaraçado para ouvir, cedo da manhã, tua bela voz acabrunhar-se em meus ouvidos e ultrajar a minha tão arruinada dignidade!
- Que diabos, homem! Confesso que vejo em tomar banho em alcovas um quê de excentricidade, porém não ao ponto de justificar lamentos tão lamuriosos.
- Creio que dormes ainda! Não percebes que o que ensopa o teu honroso leito não se trata de água?
- ...!
- Eu tentei, não me ouviste e agora te suplico perdão. Falávamos de controle e a verdade é que...
- Dá-me logo a verdade!
- A verdade é que nada é capaz de regrar minha bexiga incontinente a não ser as fraldas! Sim, as fraldas, as mesmas fraldas que jogaste ao largo com tanta efusão!
- Que porco! Imundo! Como posso expressar o tamanho asco que sinto por ti neste momento?!
- Continua! Estás demente, só assim! Ora me alcunhas de porco, mas mesmo mijado me recordo com clareza que há bem pouco chamavas-me leão...
- Despe-te!
- Ora, como poderia? Estás ao meu lado e, pelo adiantado da hora, acabaríamos por cair no sono...
- Hoje o sono nos terá despidos, então.
- ...
- Ou, por um acaso, sentes medo?
- Medo de forma alguma! Contudo admitamos que a situação é um tanto constrangedora.
- Queres dizer que te ponho envergonhado?
- Não me entendas mal, por favor. Temo apenas pela tua honra, e só a tua, eis que sou homem e tu a mim te apresentas como uma jovem e formosa moça, mais cheia de viço e de vida do que eu poderia suportar.
- Não sejas tão tolo! Deste lado da cama parece, isto sim, que supões que eu não seria capaz de me controlar. Saibas tu e tuas tantas roupas que tenho pleno domínio de minhas emoções.
- Infelizmente sou incapaz de dizer o mesmo de mim...
- Despe-te e te deitas então, leão impulsivo e descontrolado, que te adornarei com rédeas tão logo a tua última peça caia ao chão do quarto.
(e ao acordarem...)
- O que, por Deus, é isto? Resolveste tomar banho aqui no quarto e, como se já não bastasse, sobre a cama?
- Pela graça, não fala mais! Estou por demais embaraçado para ouvir, cedo da manhã, tua bela voz acabrunhar-se em meus ouvidos e ultrajar a minha tão arruinada dignidade!
- Que diabos, homem! Confesso que vejo em tomar banho em alcovas um quê de excentricidade, porém não ao ponto de justificar lamentos tão lamuriosos.
- Creio que dormes ainda! Não percebes que o que ensopa o teu honroso leito não se trata de água?
- ...!
- Eu tentei, não me ouviste e agora te suplico perdão. Falávamos de controle e a verdade é que...
- Dá-me logo a verdade!
- A verdade é que nada é capaz de regrar minha bexiga incontinente a não ser as fraldas! Sim, as fraldas, as mesmas fraldas que jogaste ao largo com tanta efusão!
- Que porco! Imundo! Como posso expressar o tamanho asco que sinto por ti neste momento?!
- Continua! Estás demente, só assim! Ora me alcunhas de porco, mas mesmo mijado me recordo com clareza que há bem pouco chamavas-me leão...
Terça-feira, Maio 09, 2006
Pode ser que a cabeça ande mal, ou de verdade sejam as mais idas horas que nos separam que me impelem ao esquecimento (bem devagar, para que eu não perceba que esqueço e que, pouco a pouco, a saudade é só mais um não-mais pálido e apagado).
Inda assim, te descubro no último adeus.
Teus braços pediam mais que um abraço e eu, desastrado e envergonhado, revelava sobretudo a mim que nada tinha a oferecer, nem um choro, nem um andar vacilante, nem uma esperançosa olhada para trás, quando o teu pedido já era vento que voava longe junto com o teu perfume.
Não tinha os meus poemas, muito menos meus pretensiosos ares de poeta, pois a palavra a ser oferecida, de muito educada, retraía-se, aviltada diante da mentira que eu ensaiava em meu peito.
A ti não dediquei cortejos, nem arpejos, nem o sobejo do beijo que eu, soberbo, guardava em um bolso que não seria remexido dali a pelo menos alguns bons meses, quando esse texto tomaria forma. Pensando bem, a mim faltou a gentileza que tantas vezes vi transbordar em teu sorriso, quando ele se movia junto com a barra do teu vestido. Mas nada disso foi por mal, de fora o sopro do beijo que eu insistia em fazer de amuleto e que era, de fato, uma fotografia que se queimou antes de ser revelada.
Hoje, ao lembrar da promessa que te fiz e que te falei com os meus dedos entoando um tchau mudo, vejo que mais não poderia ter dado, e com mais graça não poderia ter agido, e com mais sentimento não poderia ter me despedido, pois que lá, naquele adeus, eu não estava, por encolhido e guardado em um canto mais canto que o meu bolso, ou que o meu peito, de certo a esperar um momento apropriado para também tomar forma. Escrevo a ti, então, não como um miserável que esmola a comida que não faz por merecer, mas como um desesperado que se quer de volta e que não se pode ter, desde aquele adeus.
Inda assim, te descubro no último adeus.
Teus braços pediam mais que um abraço e eu, desastrado e envergonhado, revelava sobretudo a mim que nada tinha a oferecer, nem um choro, nem um andar vacilante, nem uma esperançosa olhada para trás, quando o teu pedido já era vento que voava longe junto com o teu perfume.
Não tinha os meus poemas, muito menos meus pretensiosos ares de poeta, pois a palavra a ser oferecida, de muito educada, retraía-se, aviltada diante da mentira que eu ensaiava em meu peito.
A ti não dediquei cortejos, nem arpejos, nem o sobejo do beijo que eu, soberbo, guardava em um bolso que não seria remexido dali a pelo menos alguns bons meses, quando esse texto tomaria forma. Pensando bem, a mim faltou a gentileza que tantas vezes vi transbordar em teu sorriso, quando ele se movia junto com a barra do teu vestido. Mas nada disso foi por mal, de fora o sopro do beijo que eu insistia em fazer de amuleto e que era, de fato, uma fotografia que se queimou antes de ser revelada.
Hoje, ao lembrar da promessa que te fiz e que te falei com os meus dedos entoando um tchau mudo, vejo que mais não poderia ter dado, e com mais graça não poderia ter agido, e com mais sentimento não poderia ter me despedido, pois que lá, naquele adeus, eu não estava, por encolhido e guardado em um canto mais canto que o meu bolso, ou que o meu peito, de certo a esperar um momento apropriado para também tomar forma. Escrevo a ti, então, não como um miserável que esmola a comida que não faz por merecer, mas como um desesperado que se quer de volta e que não se pode ter, desde aquele adeus.
Sexta-feira, Março 10, 2006
Dois desejos, por humildade.
Deu-me uma e me deu duas.
Na terceira, revirou-se.
Que não mais quer, que não precisa,
"Há grandes coisas na vida, dentre as quais o conformar."
Depois me fala para largar o cigarro!
A cachorra adoeceu, ou não demora arria.
Diz que durou, mas a mim foi pouco tempo.
"Há tristes coisas na vida, dentre as quais um cachorro velho."
O conformar seria bem diferente se o fogo de um cigarro durasse o instante em que o tempo passa para uma cachorra que há muito passou para o tempo.
Deu-me uma e me deu duas.
Na terceira, revirou-se.
Que não mais quer, que não precisa,
"Há grandes coisas na vida, dentre as quais o conformar."
Depois me fala para largar o cigarro!
A cachorra adoeceu, ou não demora arria.
Diz que durou, mas a mim foi pouco tempo.
"Há tristes coisas na vida, dentre as quais um cachorro velho."
O conformar seria bem diferente se o fogo de um cigarro durasse o instante em que o tempo passa para uma cachorra que há muito passou para o tempo.
Segunda-feira, Fevereiro 20, 2006
Vê? Será assim tão lindo,
Ou sou eu que tremo demais?
No frio, sobretudo a beleza é reconforto.
(Nada explica a despudorada sacanagem da água
Penetrando indolentemente a praia -
Confusa definição de sublime -,
Que não uma espécie de perversão divina.
Fossem a água e a areia irmãs, ao invés de amantes,
Inda assim existiria o romantismo,
Mesmo sem que houvesse tanta safadeza).
E me pergunto como posso eu suar,
Com todo esse frio e com todo esse mar.
No fim, sobretudo o suor é tira-gosto.
Ou sou eu que tremo demais?
No frio, sobretudo a beleza é reconforto.
(Nada explica a despudorada sacanagem da água
Penetrando indolentemente a praia -
Confusa definição de sublime -,
Que não uma espécie de perversão divina.
Fossem a água e a areia irmãs, ao invés de amantes,
Inda assim existiria o romantismo,
Mesmo sem que houvesse tanta safadeza).
E me pergunto como posso eu suar,
Com todo esse frio e com todo esse mar.
No fim, sobretudo o suor é tira-gosto.
Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
O Último Verão
Eram ainda oito ou nove da manhã, não sabia bem ao certo com toda essa confusão de horários, e sua cabeça, no entanto, já queria adormecer, fatigada de tanta dor-saudade. A mala que ia ao braço pesava, como pesava o repetido começar a cutucar em tudo o que repousava num canto da sua história, sem se preocupar com como isso terminava: é o início da lembrança, a descoberta da memória não-escancarada, a breve e instantânea certeza de uma vida já vivida, isso é o que dói, só o começo, não a lembrança; de forma que cutucava, cutucava, cutucava, até o ponto que sabia que a lágrima escorreria, glorificando o sofrimento que, dali a atrás, valeu a pena de se ter sofrido.
Por mais que se compreenda a inutilidade da nostalgia, sempre haverá um quê de vaidade na exaltação ao próprio passado, como se, ao repensá-lo, escrevêssemo-nos, cientes de uma personalidade devidamente ilustrada e colorida. Porque até os sonhos em branco e preto são mais interessantes com um leve tom de vermelho (tom que, palavra, vem da embriaguez, que a despeito de não trocar as pernas, embarga qualquer canção que nos atrevemos a entoar).
Entra no carro com o olhar meio que fixo na janela, longe do ar-condicionado capaz de ressecar, em uma só rajada, tanto a pele de sua boca quanto a graxa de seu sapato. "É que ninguém me avisou, ô Tonho, ninguém me avisou...", diria ao motorista, na vaga esperança de uma compreensão tácita do que nem ele podia, ao certo, cheirar. A frase possibilitaria o agoniado desatar do homem a falar do tempo, da cidade, da violência e do futebol, sobretudo do futebol, enquanto, da janela, ele olharia as nuvens que, com certa ironia, passavam ligeiras, mais do que o carro e mais do que o seu relógio, como a segredar que, já àquele tempo, eram mais rápidas que a sua bicicleta.
E ainda achava que ninguém o avisara!
Que era, senão aviso, a parede que à umidade se entregava, como um lenço, passivo, que, de dores se encharcando, compartilhava-as, à surdina, com o bolso de uma calça qualquer; que era o azulejo que caía, de tão quebrado, trazendo à baila um buraco no irregular padrão do tempo; que era a volta última da chave, cerrando um espaço que, em tanto desdobrar, não poderia nunca mais caber dentro daquele apartamento?
O motorista encerrava o discurso com um pigarro despeitado, sabendo que seu papel era nada mais do que confirmar o que todos um dia constatariam.
(...)
Saltou por ali, junto àquelas dunas, donde ao longe podia ver a velha casa e, de perto, podia ver o velho mar. Sentou-se um pouco, depois se deitou. Hesitou, mas findou por decidir abrir a valise, mais cheia de nada do que atestadamente comportava. As horas, com leve escárnio, espreguiçavam-se feito uma gota que, querendo, escorre, ao invés de pingar.
Mas o regozijo da espera não é mais do que impaciência, para quem, certo dia, atropelou-se em viver. Bem por ali adormeceu, usando tão pesada mala de travesseiro. Já ressonava, profundamente, quando o sol, em último suspiro, afogou-se ao longe, na foz do rio, deixando para trás o derradeiro queimar no céu.
Acordaria, dali a pouco, desorientado, mas, sobretudo, atônito: é a dura certeza de que, mesmo a complacência, mais certo ou mais tarde, uma hora anoitece.
Eram ainda oito ou nove da manhã, não sabia bem ao certo com toda essa confusão de horários, e sua cabeça, no entanto, já queria adormecer, fatigada de tanta dor-saudade. A mala que ia ao braço pesava, como pesava o repetido começar a cutucar em tudo o que repousava num canto da sua história, sem se preocupar com como isso terminava: é o início da lembrança, a descoberta da memória não-escancarada, a breve e instantânea certeza de uma vida já vivida, isso é o que dói, só o começo, não a lembrança; de forma que cutucava, cutucava, cutucava, até o ponto que sabia que a lágrima escorreria, glorificando o sofrimento que, dali a atrás, valeu a pena de se ter sofrido.
Por mais que se compreenda a inutilidade da nostalgia, sempre haverá um quê de vaidade na exaltação ao próprio passado, como se, ao repensá-lo, escrevêssemo-nos, cientes de uma personalidade devidamente ilustrada e colorida. Porque até os sonhos em branco e preto são mais interessantes com um leve tom de vermelho (tom que, palavra, vem da embriaguez, que a despeito de não trocar as pernas, embarga qualquer canção que nos atrevemos a entoar).
Entra no carro com o olhar meio que fixo na janela, longe do ar-condicionado capaz de ressecar, em uma só rajada, tanto a pele de sua boca quanto a graxa de seu sapato. "É que ninguém me avisou, ô Tonho, ninguém me avisou...", diria ao motorista, na vaga esperança de uma compreensão tácita do que nem ele podia, ao certo, cheirar. A frase possibilitaria o agoniado desatar do homem a falar do tempo, da cidade, da violência e do futebol, sobretudo do futebol, enquanto, da janela, ele olharia as nuvens que, com certa ironia, passavam ligeiras, mais do que o carro e mais do que o seu relógio, como a segredar que, já àquele tempo, eram mais rápidas que a sua bicicleta.
E ainda achava que ninguém o avisara!
Que era, senão aviso, a parede que à umidade se entregava, como um lenço, passivo, que, de dores se encharcando, compartilhava-as, à surdina, com o bolso de uma calça qualquer; que era o azulejo que caía, de tão quebrado, trazendo à baila um buraco no irregular padrão do tempo; que era a volta última da chave, cerrando um espaço que, em tanto desdobrar, não poderia nunca mais caber dentro daquele apartamento?
O motorista encerrava o discurso com um pigarro despeitado, sabendo que seu papel era nada mais do que confirmar o que todos um dia constatariam.
(...)
Saltou por ali, junto àquelas dunas, donde ao longe podia ver a velha casa e, de perto, podia ver o velho mar. Sentou-se um pouco, depois se deitou. Hesitou, mas findou por decidir abrir a valise, mais cheia de nada do que atestadamente comportava. As horas, com leve escárnio, espreguiçavam-se feito uma gota que, querendo, escorre, ao invés de pingar.
Mas o regozijo da espera não é mais do que impaciência, para quem, certo dia, atropelou-se em viver. Bem por ali adormeceu, usando tão pesada mala de travesseiro. Já ressonava, profundamente, quando o sol, em último suspiro, afogou-se ao longe, na foz do rio, deixando para trás o derradeiro queimar no céu.
Acordaria, dali a pouco, desorientado, mas, sobretudo, atônito: é a dura certeza de que, mesmo a complacência, mais certo ou mais tarde, uma hora anoitece.
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