O Último Verão
Eram ainda oito ou nove da manhã, não sabia bem ao certo com toda essa confusão de horários, e sua cabeça, no entanto, já queria adormecer, fatigada de tanta dor-saudade. A mala que ia ao braço pesava, como pesava o repetido começar a cutucar em tudo o que repousava num canto da sua história, sem se preocupar com como isso terminava: é o início da lembrança, a descoberta da memória não-escancarada, a breve e instantânea certeza de uma vida já vivida, isso é o que dói, só o começo, não a lembrança; de forma que cutucava, cutucava, cutucava, até o ponto que sabia que a lágrima escorreria, glorificando o sofrimento que, dali a atrás, valeu a pena de se ter sofrido.
Por mais que se compreenda a inutilidade da nostalgia, sempre haverá um quê de vaidade na exaltação ao próprio passado, como se, ao repensá-lo, escrevêssemo-nos, cientes de uma personalidade devidamente ilustrada e colorida. Porque até os sonhos em branco e preto são mais interessantes com um leve tom de vermelho (tom que, palavra, vem da embriaguez, que a despeito de não trocar as pernas, embarga qualquer canção que nos atrevemos a entoar).
Entra no carro com o olhar meio que fixo na janela, longe do ar-condicionado capaz de ressecar, em uma só rajada, tanto a pele de sua boca quanto a graxa de seu sapato. "É que ninguém me avisou, ô Tonho, ninguém me avisou...", diria ao motorista, na vaga esperança de uma compreensão tácita do que nem ele podia, ao certo, cheirar. A frase possibilitaria o agoniado desatar do homem a falar do tempo, da cidade, da violência e do futebol, sobretudo do futebol, enquanto, da janela, ele olharia as nuvens que, com certa ironia, passavam ligeiras, mais do que o carro e mais do que o seu relógio, como a segredar que, já àquele tempo, eram mais rápidas que a sua bicicleta.
E ainda achava que ninguém o avisara!
Que era, senão aviso, a parede que à umidade se entregava, como um lenço, passivo, que, de dores se encharcando, compartilhava-as, à surdina, com o bolso de uma calça qualquer; que era o azulejo que caía, de tão quebrado, trazendo à baila um buraco no irregular padrão do tempo; que era a volta última da chave, cerrando um espaço que, em tanto desdobrar, não poderia nunca mais caber dentro daquele apartamento?
O motorista encerrava o discurso com um pigarro despeitado, sabendo que seu papel era nada mais do que confirmar o que todos um dia constatariam.
(...)
Saltou por ali, junto àquelas dunas, donde ao longe podia ver a velha casa e, de perto, podia ver o velho mar. Sentou-se um pouco, depois se deitou. Hesitou, mas findou por decidir abrir a valise, mais cheia de nada do que atestadamente comportava. As horas, com leve escárnio, espreguiçavam-se feito uma gota que, querendo, escorre, ao invés de pingar.
Mas o regozijo da espera não é mais do que impaciência, para quem, certo dia, atropelou-se em viver. Bem por ali adormeceu, usando tão pesada mala de travesseiro. Já ressonava, profundamente, quando o sol, em último suspiro, afogou-se ao longe, na foz do rio, deixando para trás o derradeiro queimar no céu.
Acordaria, dali a pouco, desorientado, mas, sobretudo, atônito: é a dura certeza de que, mesmo a complacência, mais certo ou mais tarde, uma hora anoitece.
Gostei muito... Tem a suavidade de umas férias, cheias de quebra-molas... surreais... Tá realmente diferente dos demais, com estilo parecido, mas mais leve, sei lá porque.
ResponderExcluirGustavo | Email | 15-02-2006 05:43:04
Bem-aventurados os que atualizam seus blogs...
Aires | 14-02-2006 11:30:47
Eu nao devia alimentar sua vaidade desse modo, mas... Largue o direito e torne-se o primeiro nobel brasileiro em literatura... Nesse texto vc recuperou algo (que nao sei o que) que nos ultimos nao estava presente, ainda que tbm tenha um tom novo (que tampouco sei porque). O meu grato nao-saber e' fruto do seu escrever sem obrigacao. Abs.
Gabriel | Email | 13-02-2006 12:45:06