terça-feira, 2 de junho de 2009

Segunda-feira, Janeiro 29, 2007

Aquele sim tinha nome. Nome, sobrenome e uma necessidade sufocante de fugir de casa, necessidade que crescia no tanto que uma modorra braba, daquelas de deixar o cabelo cheirando a mofo, atacava-lhe os pés.

Passava pouco das três. Augusto Mancini saíra de casa do jeito mesmo que estava, gafo e todo acabrunhado, dizendo que ia fumar cigarro, embora se tenha por certo que o que queria mesmo era auto-impingir-se um feitio noir, mesmo às três da tarde e mesmo numa cidade tão cinza e sem contraste quanto São Paulo.

Caminhara pouco, não mais do que vinte metros, quando constatou que vivenciava um daqueles momentos da vida a que se pode realmente chamar de momento. Imediatamente, Augusto tratou de tentar resgatar todas as suas reflexões pensadas ou ouvidas que, de alguma forma, versavam sobre a plasticidade da realidade, a insustentabilidade da existência e a transitoriedade do sensível.

Tentou, mas o tempo fora insuficiente, como precisamente ocorre com todo o mais.

A lotação, que passava à rua e cenariava para o seu filosofar vespertino, sumiu sem fazer qualquer alarde, do mesmo jeito que fazia quando, já cheia, mudava de rota para evitar o caos urbano das seis. A mesma coisa se deu com uma senhorinha, simpática até, que por aquelas bandas passeava (isso é tudo o que dela se soube).

Já Augusto Mancini, aquele sim tinha nome e sobrenome que não permitiriam o seu sumiço. Augusto havia caminhado não mais do que vinte metros quando a rua abriu-se à sua frente, de certa forma convidativa, insinuando que, ao fundo, havia mais segredos e mais mistérios do que o que aquela concretada toda permitia antever. Um convite para poucos.

No instante em que penetrava os intestinos da cidade barulhenta, inevitavelmente projetava a sua memória para idos tempos onde se podia, com solidez, brincar despreocupado à margem do rio, lembrança caduca já pelo rio, que dirá de suas várzeas firmes.

E depois?

Depois mais nada. Mesmo em São Paulo, o nada faz barulho de silêncio.


Um comentário:

  1. Lindo, lindo...

    Clara | 17-01-2008 02:00:13

    Muito bom o texto, uma reflexão sensível sobre o buraco do metrô...

    Gustavo | Email | Homepage | 08-02-2007 18:38:39

    ah, e n fique preocupado, eu tb vi o comercial nos intervalos do bbb sem assistir ao programa hahahaha ;P

    Arturo | Email | Homepage | 01-02-2007 23:18:10

    tão poético que eu só me toquei depois que vi a foto... muito bom.

    Arturo | Homepage | 01-02-2007 23:16:20

    Waal! Eu não imaginava que a sua opinião sobre o assunto era tão forte -- a ponto de justificar um post inteiro. Good Lord!, I was just making conversation. Quer dizer, estou brincando, estou brincando, se bem que realmente não me lembro a razão de ter mencionado o assunto no comentário anterior. Mas o seu post veio na hora certa. Só percebi do que se estava falando depois de um tempinho. Por acaso o nome é de alguma vítima verdadeira? Eu não poderia dizer, porque não encosto num jornal desde a Copa, eu acho. O efeito da foto ficou chique. Isso é LSD ou photoshop (deixa para um próximo post)?

    Mineiro | Homepage | 31-01-2007 20:35:32

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