Tonha, cadê o café que você ficou de trazer faz três horas e até agora nada?
Não vê que o mundo não espera, Tonha?
É tanta coisa pra arrumar, tanto rumo pra aprumar, tanto problema pra resolver!
Veja, a menina de Dona Eleide caiu de cama com a testa queimando.
Inda ontem encontrei o síndico no elevador e ele jurou que a culpa é desse tempo seco.
Ele ainda não percebeu, o coitado.
Você lembra que a gente tinha ficado de sair pra comprar as coisas que estão faltando?
Já já essa menina piora e vão dizer que na verdade a culpa é sua, Tonha, você sabe disso.
Eu digo que você não faz por mal, que é muita coisa errada que se encontra nessa vida, que é quase tudo errado, na verdade.
Mas você acha que alguém lá quer saber disso? O povo quer é solução.
Uma hora dessas não vai dar mais pra esconder. Vão acabar descobrindo tudo, Tonha, e ai de quem estiver por perto quando isso acontecer.
Eu quero estar longe, porque não gosto de confusão.
Por mim, eu me ia já agora. Mas como que se faz isso, se tem três horas que espero e nada desse café ficar pronto?
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Mais uma pausa e pôs fora o cigarro ainda pela metade. Fazia isso em duas situações: quando tomado da euforia ansiosa que precedia grandes decisões, ou quando a fumaça simplesmente não lhe caía bem (corroía-lhe então a espera do assalto certeiro da melancolia obstinada que às vezes demora pra pegar. Nem uma nem outra, como se vê).
Levantou-se da cadeira a contragosto para ajustar o ventilador, não sem notar a pequena poça de suor que principiava a acumular na napa branca do encosto. Em seu curto caminho, parou em frente ao espelho detrás da porta que se insinuava todo reflexivo e, tomando a mesinha do telefone como apoio - porque era de fato insuportável até para si próprio -, atinou de se fitar um tanto, primeiro nos cabelos inevitavelmente desgrenhados, depois no rosto cansado que se consumia cotidiana, rotineira, supérflua, morosa, sucessiva, inexorável, incansável, resignada.
Não digo que chegou a suspirar; não convinha.
Resolveu que era hora de ver o mundo, antes que escurecesse e esperar pelo novo clarear fosse a única saída possível. Foi à rua do jeito mesmo que estava.
Ainda na portaria, pensou em ligar ou em mandar mensagem para alguém, mas desistiu por não encontrar ninguém adequado ao parágrafo seguinte. Falou um boa tarde visivelmente inapropriado ao porteiro e...
... encontrou a calçada, a avenida, o ônibus e os outros cotidiana e rotineiramente iguais. Arriscou uma volta no quarteirão, cogitou um atropelamento, um desafogo, um encontro súbito, um reencontro ansiado, uma discussão transformadora. Conformou-se.
Era decididamente um homem sem final.
Levantou-se da cadeira a contragosto para ajustar o ventilador, não sem notar a pequena poça de suor que principiava a acumular na napa branca do encosto. Em seu curto caminho, parou em frente ao espelho detrás da porta que se insinuava todo reflexivo e, tomando a mesinha do telefone como apoio - porque era de fato insuportável até para si próprio -, atinou de se fitar um tanto, primeiro nos cabelos inevitavelmente desgrenhados, depois no rosto cansado que se consumia cotidiana, rotineira, supérflua, morosa, sucessiva, inexorável, incansável, resignada.
Não digo que chegou a suspirar; não convinha.
Resolveu que era hora de ver o mundo, antes que escurecesse e esperar pelo novo clarear fosse a única saída possível. Foi à rua do jeito mesmo que estava.
Ainda na portaria, pensou em ligar ou em mandar mensagem para alguém, mas desistiu por não encontrar ninguém adequado ao parágrafo seguinte. Falou um boa tarde visivelmente inapropriado ao porteiro e...
... encontrou a calçada, a avenida, o ônibus e os outros cotidiana e rotineiramente iguais. Arriscou uma volta no quarteirão, cogitou um atropelamento, um desafogo, um encontro súbito, um reencontro ansiado, uma discussão transformadora. Conformou-se.
Era decididamente um homem sem final.
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