sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mais uma pausa e pôs fora o cigarro ainda pela metade. Fazia isso em duas situações: quando tomado da euforia ansiosa que precedia grandes decisões, ou quando a fumaça simplesmente não lhe caía bem (corroía-lhe então a espera do assalto certeiro da melancolia obstinada que às vezes demora pra pegar. Nem uma nem outra, como se vê). 

Levantou-se da cadeira a contragosto para ajustar o ventilador, não sem notar a pequena poça de suor que principiava a acumular na napa branca do encosto. Em seu curto caminho, parou em frente ao espelho detrás da porta que se insinuava todo reflexivo e, tomando a mesinha do telefone como apoio - porque era de fato insuportável até para si próprio -, atinou de se fitar um tanto, primeiro nos cabelos inevitavelmente desgrenhados, depois no rosto cansado que se consumia cotidiana, rotineira, supérflua, morosa, sucessiva, inexorável, incansável, resignada. 

Não digo que chegou a suspirar; não convinha.

Resolveu que era hora de ver o mundo, antes que escurecesse e esperar pelo novo clarear fosse a única saída possível. Foi à rua do jeito mesmo que estava. 

Ainda na portaria, pensou em ligar ou em mandar mensagem para alguém, mas desistiu por não encontrar ninguém adequado ao parágrafo seguinte. Falou um boa tarde visivelmente inapropriado ao porteiro e...

... encontrou a calçada, a avenida, o ônibus e os outros cotidiana e rotineiramente iguais. Arriscou uma volta no quarteirão, cogitou um atropelamento, um desafogo, um encontro súbito, um reencontro ansiado, uma discussão transformadora. Conformou-se. 

Era decididamente um homem sem final.

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