terça-feira, 19 de maio de 2009

Quarta-feira, Julho 23, 2003

Copacabana esconde muitas coisas.

Fala-se muito da beleza da praia: daquela curva de que Deus com certeza tanto gosta e se orgulha, e daquelas curvas - todas elas - de que os que têm alma e que já a viram tanto gostam e com elas se emocionam.

No entanto, da Copacabana cidade, mal se fala. Uma Copacabana caótica, Copa-Canudos moderna que, na falta de um Messias, guia-se ora em igrejas encaixadas sabe-se lá como no meio daqueles edifícios, ora em templos e casas de devoção que dividem o espaço de suas calçadas com os apostadores do Bicho, mendigos, prostitutas, loucos, e meninos em bicicletas levando mercadorias para lá e para cá.

Copacabana acorda todo dia meio que assustada, sem entender muito bem o que acontece consigo. Não entende muito bem o que fazem todos aqueles carros, o que faz todo aquele barulho, o que são todos aqueles prédios que, de longe ou de perto, de tão grudados parecem só um e, sobretudo, não entende o que é aquele burburinho que coça as suas corcovas, empestadas de casas (ou quase isso), quando não cortadas por imensas feridas que cheiram ao pior.

Essa Copa velhinha provavelmente se arrepende de ter visto como glamour quando o primeiro palácio rasgou-lhe as entranhas e ergueu-se de suas areias. Suas montanhas ainda tinham vista para o mar, e sobretudo o mar ainda avistava as suas montanhas. Não é que até esse namoro conseguiram acabar! A água foi obrigada a recuar, e a paisagem lhe foi negada.

Eram os guardiões da princesinha.

Hoje ela é velha, coitadinha, e não faz nada direito. Achando-se protegida, seus guardiões lhe tiram por vezes o Sol. O seu mar nunca foi tão de outro. Com dificuldade, recorda dos tempos em que tocavam para ela ao violão - hoje, o máximo que consegue ouvir são músicas de cabarés.

Hoje a Alteza perde-se numa Copacabana de luxúria, vícios, desordem. Ah! Tanto desrespeito a uma senhora de idade.

Um comentário:

  1. O que mais me impressionou neste seu texto não foi a técnica, esta mais que dominada pelo nosso escritor. Me impressionou a sensibilidade em traduzir o bairro com tanta propriedade e sensibilidade. Parabéns. Você tem aquele 1% que as pessoas que tem talento tem para ir longe. Aquele 1% que supera a técnica mas que é indescritível e não palpável.

    Gustavo | Email | Homepage | 24-07-2003 01:47:35

    George, achei esse seu texto muito bonito. Temo que a Via Costeira e Areia Preta tenham o mesmo destino que Copacabana, quem relação ao imóveis.

    Julia | Homepage | 23-07-2003 23:12:01

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